<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234</id><updated>2011-12-22T14:58:30.756-02:00</updated><title type='text'>SAMBOFILIA</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>39</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-1452230837012057178</id><published>2011-12-21T13:33:00.000-02:00</published><updated>2011-12-21T13:33:19.313-02:00</updated><title type='text'>samba Mangueira 2012</title><content type='html'>Os amigos devem saber que não sou uma pessoa que tenho um grande amor (apaixonado) pela Mangueira, tamanho é o fanatismo de sua torcida, mas é preciso dizer que há algo especial na Mangueira, que irradia. A nova administração do Ivo Meirelles tem a sua beleza, exatamente por saber valorizar essa energia que é “ser mangeirense”, identificar que essa é a essência da Mangueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vemos acompanhando nos últimos anos a intensificação de um estilo de Carnaval em que o espetáculo visual tem primazia sobre o desfilar. Ou seja, o desfile das escolas de samba se tornou algo para SER VISTO e não para SER VIVIDO. Muito haveria para ser falado sobre isso, a transmissão da TV, o turismo internacional, os vícios da tal “profissionalização” das escolas, os critérios draconianos de julgamento, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que vem ao caso é que a administração do Ivo Meirelles tem sido um contraponto a isso. Não estou querendo endeusar o Ivo, até porque não sou ingênuo e sei de todas as contraindicações que sua eleição representa numa série de relações mais gerais entre a mídia, o morro e a socidade, mas o que simplesmente quero apontar aqui é que o Ivo – certo ou errado – resolve apostar tudo num olhar que ele acredita e em que ele aposta: e esse olhar é acima de tudo MANGUEIRENSE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A administração anterior fez uma revolução na Mangueira. Recebeu a escola totalmente falida, e, com uma filosofia de profissionalização, transformou não só a escola mas a própria comunidade da Mangueira, resgatando sua credibilidade no cenário do Carnaval. Vejam a diferença hoje da Mangueira para o Império Serrano ou a Portela. Vimos a Mangueira com uma estrutura exemplar, invejável!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que vimos? Uma Mangueira como qualquer outra escola. Uma Mangueira luxuosa, talvez como nunca tenha vindo antes. O desfile do Maomé foi exemplar nisso. Carros acoplados, muito luxo, mas cadê a Mangueira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos depois, já com o Ivo, vimos a Mangueira sendo cogitada para ser rebaixada, carros na madeira. Mas a comunidade do samba se juntou, os mangueirenses saíram da toca, superaram todas as dificuldades, e a Mangueira, mesmo com o regulamento draconiano, foi para o desfile das campeãs! Isso sim é a Mangueira! Com isso não estou querendo fazer apologia da miséria ou da desorganização, mas querendo apontar para o que é o Carnaval, o que representa ser mangueirense, e para as diferenças de filosofia entre as duas gestões.&lt;br /&gt;2011 foi a coroação de uma nova filosofia de carnaval na Mangueira: ao contrário de um desfile para ser simplesmente visto, um desfile para ser cantado e sambado. Trunfo: o samba que poucos acreditavam, que não era sofisticado melodicamente, mas era mangueirense. E Mangueira é emoção!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim é o samba de 2012, com a pegada dos sambas do Lequinho, ao mesmo tempo mais simples e ao mesmo tempo com uma certa sofisticação melódica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá lá o olhar do Ivo. O mesmo Ivo que foi campeão na Mangueira, com um samba simples, o de 1986, mas que se tornou antológico. Por que? Porque é um samba mangueirense. Não tem explicação!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Ivo, que é mangueirense, sabe que só é possível implementar essa nova filosofia se houver um foco no samba-enredo. E que é preciso caminhar pra frente mas que não se pode deixar de olhar para trás. E olhar para trás no caso do samba-enredo da Mangueira é dialogar com a enorme tradição dos anos oitenta e início dos noventa com os sambas do Hélio Turco e Jurandir. Que justamente deixaram de ganhar as disputas com a chegada da nova diretoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A influência do Hélio Turco/Jurandir está toda lá no samba de 2011 e está toda aqui no de 2012. Mas ao mesmo tempo não é um samba do Hélio Turco, é um samba do Lequinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A síntese de todos esses movimentos (políticos, musicais...) está na brilhante segunda parte do samba. Brilhante mesmo! Com algumas falhas, mas o que importa? É um samba mangueirense. Um crescendo trabalhado com muita energia, com expressões simples que se repetem com pausas para o canto (comparem o papel do “sim” com o do “será” do famoso samba de 1988...). Até explodir num verso de enorme emoção ("Chora, chegou a hora eu não vou ligar"). Mais em seguida tem outro verso de grande impacto emocional (“Mangueira fez o meu sonho acontecer”), mas seguido de uma pausa bastante longa, bem atípica, que nunca entraria num samba do Hélio Turco (taí a pegada do Igor Leal/Lequinho). Ainda, não daria para o samba seguir com outro crescendo para explodir no final (como aconteceria com os sambas do Hélio Turco, por exemplo o de 1992, “se todos fossem iguais a você/que maravilha seria viver”, curiosamente o último samba da dupla). Daí os compositores de 2012 acharam um recurso muito bem encaixado, que encerra o samba com um espírito de humildade raro aos sambas mangueirenses: é preciso respeitar onde a Mangueira chegou, porque isso é raro, e precisa ser comemorado. Lindo final!!! Pra ser cantado e não assistido!!!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-1452230837012057178?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/1452230837012057178/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=1452230837012057178' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1452230837012057178'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1452230837012057178'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2011/12/samba-mangueira-2012.html' title='samba Mangueira 2012'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-7276332673440699091</id><published>2011-04-18T09:52:00.002-03:00</published><updated>2011-04-18T09:56:39.503-03:00</updated><title type='text'>O silêncio como motor do verso</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Texto que escrevi sobre o Carnaval 2011, especialmente comparando os desfiles da Tijuca e da Mangueira. Ele extrapola o samba-enredo mas também é atravessado pelas questões musicais. Publicado em &lt;/span&gt;http://pedromigao.blogspot.com/2011/03/cinecasulofilia-especial-o-silencio.html&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;" &gt;O silêncio como motor do verso&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desfile das escolas de samba de 2011 pode ser visto entre dois aspectos, entre duas opções que se materializam nos desfiles e nas opções de duas escolas: a Unidos da Tijuca e a Mangueira. De um lado, o carnaval-espetáculo, de surpresas e de impacto visual; de outro, o carnaval tradicional, empurrado pelo canto e pelo chão da comunidade. É inegável que Paulo Barros trouxe um outro nível ao Carnaval carioca, criando um desfile de imediata comunicação ao público, compondo traquitanas que se revelam e se escondem ao público, como um quebra-cabeças visual que se revela ao vivo, diante dele, dialogando com os espetáculos de variedade, o circo, o teatro, o ilusionismo. Existe ali uma marca própria de um artista visual que estabelece um desfile de plena comunicação com o público pela facilidade de leitura do seu enredo. No entanto, a participação não se dá num sentido carnavalesco, em que o público é levado a “desfilar” com a escola, mas a interação ocorre pelo espanto e pela surpresa – o público fica boquiaberto, deve “prestar atenção” nos efeitos que surgem e desaparecem, o que precisa de um tempo de fruição: todos os olhos precisam estar fixos para o espetáculo, e não para o outro, o sambista ao seu lado. A renovação que Paulo Barros trouxe aos desfiles das escolas de samba é bem-vinda:a partir de seu sucesso, outros presidentes do mundo do samba tomaram coragem para trazer carnavalescos dos grupos de acesso, como hoje estão Cahê Rodrigues, Fábio Ricardo – e até mesmo a Estácio, que neste ano, trouxe um canavalesco de 26 anos oriundo dos carnavais virtuais, da internet. Mas esse tipo de espetáculo possui as suas contraindicações: a Tijuca destruiu sua enorme tradição de sambas-enredo, que agora tornam-se meras leituras corretas que ilustram um enredo, tanto que sua principal chave é a letra e os refrões, e não as variações melódicas, como os melhores sambas da Tijuca (vide “o dono da terra” e “agudás”, só para ficar nos mais recentes, entre tantos outros). A renovação de Paulo Barros – um novo carnavalesco, uma nova escola, uma nova estética – aponta acima de tudo para “um novo padrão” de desfiles, uma nova visão da administração das escolas de samba promovida pela Liesa, uma “profissionalização da gestão” no sentido de atrair estrangeiros e as emissoras de televisão, as verdadeiras “consumidoras” do Carnaval carioca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De outro lado existe uma reação romântica e conservadora representada pelo desfile da Mangueira. A eleição de Ivo Meireles – que causou uma tensão no mundo do samba por ser um novo (velho) episódio das relações entre o morro e o asfalto travadas pelas diretorias da escola – trouxe uma transição do estilo democrático que regia a escola para um regime centralizador, em que o novo presidente era responsável por todas as decisões. Uma das mais expressivas foi a dissolução do Conselho que escolhia o samba-enredo da escola, transformando-o em um mero conselho consultivo – o presidente ouve a todos, mas ele sozinho toma as decisões. Caminho que parece o contrário dos rumos de profissionalização do Carnaval atual, que a gestão do Elmo – representado por Alvinho e Chininha – tanto representou para a Verde-e-Rosa, que escapando à sina das “grandes de Madureira”, conseguiu se reestruturar, dados os “novos tempos”. Acontece que Ivo tem duas coisas a seu favor: é uma personalidade midiática e, claro, também é compositor. Ivo Meireles gosta de lembrar que quando ganhou seu primeiro samba pela Mangueira todos diziam pelas suas costas que a Mangueira iria cair com um samba que cantava “tem xinxim e acarajé, tamborim e samba no pé”. Mas a Mangueira foi campeã, “com um desfile pobre e simples, mas com alma de Mangueira”. Como compositor e, acima de tudo, como um apaixonado às tradições mangueirenses – dessa forma contrário à visão grandiosa da antiga gestão, sintetizada pelos enormes carros abre-alas acoplados, nunca antes vistos na Mangueira – Ivo Meireles surpreendeu a todos quando escolheu o samba menos cotado da disputa, em contraposição ao samba de um dos principais “escritórios” da atualidade, que tinha a preferência da quadra. Mas Ivo preteriu o samba do escritório não por teimosia ou por uma postura política ou ideológica, mas simplesmente porque o “samba dos paulistas” era o que curiosamente mais se alinhava com o seu novo padrão de gestão: uma gestão menos profissional e mais afetiva. Na semana seguinte à escolha do samba, o presidente disse à comunidade que queria fazer uma oração. E simplesmente recitou a letra do samba escolhido. Ali era o início de uma opção radical, por uma forma de resistência de se fazer carnaval. No carnaval da Mangueira – antítese do carnaval-espetáculo da Tijuca – o musical não estava meramente subordinado ao visual. O samba e as alegorias e fantasias servem ao enredo, e não meramente o enredo é uma “desculpa” para uma enumeração de efeitos especiais. A essência do carnaval passa a ser o canto e o samba, seus itens de base, de fundo, ligados à formação do sambista: suas tradições, o samba como música e como dança. O desfile da escola de samba passa a ser vivido e não visto. O envolvimento do espectador passa a ser através da emoção e não da surpresa ou do espanto. Ou ainda, através do sentimento e da solidariedade. Se na Tijuca o momento mais impressionante é a transformação da comissão de frente em homens sem cabeça (o efeito, o espanto, o espectáculo mágico), o mais impressionante no desfile da Mangueira é quando a bateria e os intérpretes se calam (o silêncio como motor do verso). Recurso simples, ligado ao que poderia ser visto como uma ausência (uma suposta falha no carro de som), torna-se símbolo de uma potência, porque é na falta que descobrimos a presença do outro. Quando o surdo um da bateria da Mangueira para, o coração continua batendo. Quando o surdo um da bateria da Mangueira para, o coração continua batendo. Talvez seja essa a essência do carnaval, ou melhor, essência, mais do que simplesmente do carnaval, de toda uma comunidade, que dribla a precariedade do dia-a-dia com a busca de algo que os una, que vá além do silêncio. Por isso é brava a romântica opção de Ivo Meireles, em tornar o desfile da Mangueira acima de tudo um desfile de resistência.&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-7276332673440699091?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/7276332673440699091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=7276332673440699091' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/7276332673440699091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/7276332673440699091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2011/04/o-silencio-como-motor-do-verso.html' title='O silêncio como motor do verso'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-7359245272852077916</id><published>2009-09-10T21:45:00.002-03:00</published><updated>2009-09-10T22:07:54.589-03:00</updated><title type='text'>Mangueira 2010</title><content type='html'>&lt;meta equiv="Content-Type" content="text/html; 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Isso é interessante, pois em certa medida isso já se verifica em todas as escolas, inclusive aquelas que divulgam os autores. Isso porque na maior parte dos sambas, feitos pelos escritórios, aqueles que assinam os sambas são meros “laranjas”, sendo que temos que adivinhar os verdadeiros autores, e daí surgem as especulações e as insinuações dos amigos mais bem informados que dizem que o samba tal é do escritório de fulano, e etc, etc, que já virou a regra das eliminatórias de samba-enredo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Mas a forma radical como a Mangueira organizou isso – impedindo a divulgação dos autores – só confirma o mais do mesmo: são os mesmos compositores de sempre que vão caminhando para a final, mas ao mesmo tempo a diretoria deixa um ou outro cabeça de bagre claramente só para fazer uma média e dizer que todos têm a chance de chegar “quase” lá – o “quase” aqui é fundamental.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Dito isso, e ouvindo os seis sambas finalistas, digo que apenas dois têm alguma condição de se sagrarem campeões: são os sambas de número 1 e o de número 3. Aparentemente são de dois fortes escritórios do samba, o que confirma que esse tal anonimato não contribuiu de fato para uma democratização da escolha do samba, mas ao contrário, para uma legitimação dos mesmos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Ouvindo o samba 1 realmente me deu mais uma vez a impressão de ser do Lequinho. É curioso saber que não é ele o autor (dizem as boas informadas e infiltradas fontes...). É uma beleza de samba em termos de letra e melodia. Dificilmente outra escola terá um samba tão leve e ao mesmo tempo tão refinado. O curioso é que o principal concorrente do Lequinho parece ter bebido na fonte original do seu rival: o samba tem um refinamento de letra e melodia típico dos sambas que o Lequinho conquistou na Mangueira, com um refrão forte e “pegado”, marca recente da escola. Há até a repetição de palavras no refrão principal “Chegou, a Mangueira chegou”, presente em quase todos os sambas do Lequinho. Balanços de melodia típicos como “De norte a sul viajei com a melodia” ou mesmo “Vem me trazer a canção”. Fora as comparações, uma leitura leve, fácil e bem criativa do enredo. Grande letra. Trocadilhos funcionais. O refrão do meio é uma beleza. A letra no final da segunda parte é bastante poética, sugestiva e bem construída ("O sol nascerá", as cortinas irão se fechar / "Folhas secas" virão e o show vai continuar). Meu único porém é que diversos versos são muito longos e a melodia, embora bastante criativa, possa "embolar", dificultando o canto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O samba 3 tem uma melodia criativa, refinada, mas acho mais irregular, menos leve, menos a cara da Mangueira. Sabendo que este sim é do Lequinho, tendo a achar que teve a participação decisiva do Gustttavo (parece que eles estão compondo juntos). Por oputro lado, há recursos que me lembram muito dos sambas do André Diniz e do pessoal da Vila (em termos de melodia): “POETAS IMORTAIS, ARTISTAS GENIAIS”, “ESCOLA DE VIDA, EXEMPLO DE AMOR” ou mesmo “A LETRA ENCONTRA A MELODIA”, “CAMINHANDO CONTRA O VENTO”. Gosto bastante da segunda parte O samba cresce muito na segunda metade da segunda parte (a partir do “no ar”), tendo uma melodia num crescendo bonito e bem arranjado, com emoção, a cara da escola. Pelos “contornos sinuosos” lembra (muito mal comparando) o samba da manga de 93. Mas a primeira parte é irregular, com trechos desencaixados, atípicos do estilo da escola.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Em relação ao samba 5 acho que a Mangueira já passou desse tipo de samba, que é sem duvida mais leve mas bem menos refinado. A Mangueira conseguiu no final dos anos noventa uma sofisticação visual que não mais cabe esse tipo de samba. Sem duvida empolga mas é menos consistente. Mas pode ser que o Ivo queira uma reviravolta, resgatar um estilo “mais popular” (diria “popularesco”) e dialogar com certos segmentos da escola, mas musicalmente não há dúvida que escolhendo esse samba a Mangueira volta muito atrás. De qualquer forma, é bom saber que um veterano da escola está voltando a fazer sambas, entrando na disputa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:10pt;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:10pt;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Os outros sambas, foram uma ou outra passagem, são bem menos interessantes. Dois sambas bons é pouco para uma escola da envergadura da Mangueira, e mostram que a "abertura" promovida pelo presidente Ivo Meireles não teve efeitos práticos concretos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:10pt;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:10pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-7359245272852077916?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/7359245272852077916/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=7359245272852077916' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/7359245272852077916'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/7359245272852077916'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/09/mangueira-2010.html' title='Mangueira 2010'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-5201824081196354274</id><published>2009-09-10T21:42:00.000-03:00</published><updated>2009-09-10T21:43:37.192-03:00</updated><title type='text'>2010 !!!</title><content type='html'>vamos la, vou comecar a postar algo sobre os sambas de 2010...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-5201824081196354274?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/5201824081196354274/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=5201824081196354274' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5201824081196354274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5201824081196354274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/09/2010.html' title='2010 !!!'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-2369835166594818463</id><published>2009-04-20T10:20:00.001-03:00</published><updated>2009-04-20T10:22:10.021-03:00</updated><title type='text'>imperdível!!!</title><content type='html'>Extraordinária iniciativa de Ricardo Delezcluze, Chico Frotta e Marcello Sudoh: colocar na net os sambas do Grupo de Acesso de 2008, em especial os dos grupos C, D e E (RJ 2, 3 e 4), completamente fora da mídia.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://cdacesso.weebly.com/index.html"&gt;http://cdacesso.weebly.com/index.html&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-2369835166594818463?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/2369835166594818463/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=2369835166594818463' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/2369835166594818463'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/2369835166594818463'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/04/imperdivel.html' title='imperdível!!!'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-5333043481369138513</id><published>2009-04-15T00:51:00.002-03:00</published><updated>2009-04-15T00:54:29.454-03:00</updated><title type='text'>Mocidade 2008</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;- Obra-prima:&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;1- Mocidade&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Para quem já teve dois anos seguidos de Santana e Simpatia, o samba da Mocidade é um milagre, uma benção. E é a coisa mais linda do mundo, porque é um samba que bebe na fonte do maior compositor da Mocidade, o Mestre Toco. Depois de décadas perdendo na disputa sempre com os melhores sambas (i.e os mais ousados, os mais apaixonados, os mais visionários, etc.), Toco finalmente voltou a vencer na Mocidade, mas teve seu samba completamente desfigurado em 2006 e fez um de seus sambas mais fracos em 2007. Agora sim em 2008, seu parceiro Marquinho Marino (com a ajuda do Igor Leal, que já tinha feito belos sambas na Beija-Flor) fez um samba digno das antologias da Mocidade. Samba de melodia original, de letra descritiva mas poética, que foge totalmente das fórmulas, chavões ou frases de efeito, o samba da Mocidade é um milagre, especialmente na segunda metade da segunda parte: mitos, crenças, guerreiros se confundem como se fossem uma visão, com uma melodia que vai crescendo, crescendo, até engasgar na garganta (=emoção, construção, devoção), e, claro, "no peito uma estrela a brilhar", porque como o refrão final coloca, esse samba é acima de tudo um apelo ao espírito guerreiro da Mocidade nessa época de vacas magras para a escola, ou seja, um grande hino, uma grande declamação de amor à Mocidade, ou seja, um samba que tiraria um sorriso de canto de boca do Mestre Toco.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-5333043481369138513?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/5333043481369138513/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=5333043481369138513' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5333043481369138513'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5333043481369138513'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/04/mocidade-2008.html' title='Mocidade 2008'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-7944201533933400662</id><published>2009-04-14T21:24:00.001-03:00</published><updated>2009-04-14T21:25:47.412-03:00</updated><title type='text'>Birashow - Mangueira 2004</title><content type='html'>&lt;em&gt;mais comentários sobre sambas da Mangueira na disputa em 2004. Agora sobre o belo refrão final do samba do Birashow, que agora na gestão Ivo Meirelles, acredito que deva voltar a fazer sambas.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Tô encantado com Minas Gerais&lt;br /&gt;O Eldorado que me traz felicidade&lt;br /&gt;Tempero bom que não me esqueço mais&lt;br /&gt;Vou para Mangueira pra matar minha saudade"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro acontecimento na Mangueira esse ano foi esse refrão do samba de Birashow e parceiros. O grande salto desse refrão é traduzir uma idéia de intimidade através de uma noção de melodia e ritmo. Como é possível trazer uma idéia de mineiridade para a estrutura de um samba? É no sentimento dessa "mineirice" que o refrão avança, com uma idéia de sinestesia: a partir da melodia, o samba transcende seus limites, e é quase possível sentir o cheiro e o paladar particulares de uma terra distante (no "tempero bom").&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seguir, o samba insere uma idéia fundamental, afastando-se completamente do domínio do samba descritivo ou do refrão-empolgação para tornar-se um "refrão-de-essência": a de memória ("que não me esqueço mais"). Termina, enfim, com um verso de objetividade incalculável, de apelo irresistível: "Vou pra Mangueira pra matar minha saudade". A saudade de Minas, i.e do Eldorado, do tempero e do cheiro da terra, é presentificada, a partir de uma distância, através da homenagem da Mangueira. A homenagem se revela o refúgio possível, a única forma de matar uma saudade. Assim, o samba atinge outras proporções, se pensarmos que os cantos de lamento africanos eram um refúgio de memória de sua terra natal, na essência da formação do samba e do samba-de-enredo. Em primeira pessoa, o narrador se torna um escravo, lembrando ao longe de sua liberdade. Seu canto é um canto de lamento; a melodia se revela melancólica. A Mangueira é seu abrigo, é uma "imagem", representação possível, fuga pessoal, transe momentâneo, de sua alienação física e temporal, mas nunca espiritual.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-7944201533933400662?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/7944201533933400662/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=7944201533933400662' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/7944201533933400662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/7944201533933400662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/04/birashow-mangueira-2004.html' title='Birashow - Mangueira 2004'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-5781782629788328435</id><published>2009-04-14T21:22:00.002-03:00</published><updated>2009-04-14T21:24:07.244-03:00</updated><title type='text'>Amendoim e Lequinho - Mangueira 2004</title><content type='html'>&lt;em&gt;Comentários antigos sobre o samba de Amendoim e Lequinho na Mangueira em 2004. Na disputa, perderam para o "Trem Bão" de Cadu e Gabriel e parceiros.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a principal característica do samba-enredo dos anos noventa é ter redescoberto o significado das pausas, e a Beija-Flor ter sido a escola que no final da década explorou ao máximo suas potencialidades, é justamente um ex-compositor da Beija-Flor que busca um novo fôlego para a idéia das pausas, uma espécie de "contra-senso" que acaba por confirmar a regra. Amendoim e seu parceiro Lequinho continuam a trilha de experimentação melódica do belíssimo samba do ano anterior no samba proposto para o Carnaval de 2004. Ainda que com resultados não tão satisfatórios quanto os do ano anterior, comprovam que é o único samba com uma proposta de linguagem na atual safra de samba-enredo da Mangueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O melhor exemplo do estilo de experimentação proposta com o samba está nos versos :&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Vou buscar por essas trilhas&lt;br /&gt;Histórias que contam a riqueza das minas&lt;br /&gt;E decantar os seus ideais"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A melodia dos versos quebra o sentido tradicional das pausas, inserindo uma nova idéia de ritmo, rompendo mesmo com a idéia do verso, quando o terceiro verso subitamente irrompe do segundo. Em seguida, em "os seus ideais", vemos a criativa quebra melódica típica do samba do ano anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mesma forma, na segunda parte, a junção dos versos numa nova idéia de ritmo, além da referência ao mais famoso samba de Cartola:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sinto no ar o perfume que as rosas&lt;br /&gt;Roubam de ti, me fazendo sonhar"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última sílaba não fecha melodicamente o verso, deixando-o em aberto, lembrando o recurso do fim da primeira parte do samba de 2003 ("Anunciando o libertador"). Com isso, acaba sendo um belo recurso para introduzir a parte mais lírica do samba, que começa logo a seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou ainda logo no início do samba:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"No garimpo o ouro que peneiro&lt;br /&gt;É Verde e Rosa"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses três exemplos comprovam o que está em jogo no esforço de experimentação da dupla: colocar em xeque a valorização das pausas típica dos sambas-enredo atuais. Indagar se até que ponto este jogo é bem-sucedido se torna questão segunda ante ao reconhecimento de uma proposta original de construção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trecho final da primeira parte reforça de outra forma a experimentação melódica, desta vez exatamente com uma pausa (após "as belezas"), inserindo uma quebra melódica:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Transformando em poesia&lt;br /&gt;As belezas de Minas Gerais"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos seis versos finais, o samba faz um admirável retorno, como típico samba mangueirense, para uma melodia de contornos mais líricos e sem as quebras rítmicas e melódicas dos trechos anteriores. O lirismo da melodia e a idéia das pausas retornam em versos como "Minas..." ou ainda em "Mangueira sonha acordada". O efeito do "retorno ao lirismo" como forma de fechamento do samba é na verdade o mesmo do samba de 2003, a partir dos versos "Brasil, terra sagrada és a nova Canaã".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-5781782629788328435?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/5781782629788328435/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=5781782629788328435' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5781782629788328435'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5781782629788328435'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/04/amendoim-e-lequinho-mangueira-2004.html' title='Amendoim e Lequinho - Mangueira 2004'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-5580904682876485489</id><published>2009-04-14T20:03:00.002-03:00</published><updated>2009-04-14T20:06:08.435-03:00</updated><title type='text'>25 motivos para se lembrar do Carnaval 2004 :</title><content type='html'>&lt;em&gt;mais Carnaval de 2004...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;25 motivos para se lembrar do Carnaval 2004 :&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 - O samba de Jacarepaguá, a nova Aquarela Carioca&lt;br /&gt;2 - A Avenida coberta por um mar imperiano&lt;br /&gt;3 - Dodô como legítima rainha de bateria da Portela&lt;br /&gt;4 - O desfile visionário de Paulo Barros&lt;br /&gt;5 - O samba do Império Serrano, a eterna Aquarela Brasileira&lt;br /&gt;6 - O carro da "lua apaixonada chorou tanto" na Portela ...&lt;br /&gt;7 - Clóvis Bornay, de volta à frente da Portela, após trinta e tantos anos&lt;br /&gt;8 - A segunda Comissão de Frente da Portela, tradicional, atrás da Comissão de Frente "oficial"&lt;br /&gt;9 - O abre-alas da Tradição, com as letras PORTELA que subiam ...&lt;br /&gt;10 - O carro do DNA da Unidos da Tijuca&lt;br /&gt;11 - A comissão de frente carnavalesca e irreverente da Imperatriz Leopoldinense&lt;br /&gt;12 - O carro do dragão soltando fogo da Vizinha Faladeira&lt;br /&gt;13 - A volta da Unidos de Lucas à Sapucaí&lt;br /&gt;14 - A "água que lava minha alma" do desfile da Beija-Flor&lt;br /&gt;15 - Tahiana Pagung&lt;br /&gt;16 - A pista de autorama em forma de infinito, no último carro do Salgueiro&lt;br /&gt;17 - A volta de uma São Clemente irreverente&lt;br /&gt;18 - O preciosismo acabamento da Santa Cruz&lt;br /&gt;19 - A alegria de Adelaide Chiozzo no desfile da Ilha&lt;br /&gt;20 - Maria Augusta, homenageada a frente da Arranco&lt;br /&gt;21 - A procissão de fé a frente da Viradouro&lt;br /&gt;22 - O show de interpretação de Clóvis Pê na Lins Imperial&lt;br /&gt;23 - Jamelão, que contrariando todas as expectativas, cantou bravamente o samba de sua Mangueira&lt;br /&gt;24 - Os tombos de Cláudia Raia em plena Sapucaí&lt;br /&gt;25 - A ressurreição esfuziante da Vila Isabel&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-5580904682876485489?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/5580904682876485489/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=5580904682876485489' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5580904682876485489'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5580904682876485489'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/04/25-motivos-para-se-lembrar-do-carnaval.html' title='25 motivos para se lembrar do Carnaval 2004 :'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-2023612870723255537</id><published>2009-04-14T19:59:00.002-03:00</published><updated>2009-04-14T20:03:16.777-03:00</updated><title type='text'>Dois Sonhos e mais alguns outros</title><content type='html'>&lt;em&gt;mais um texto antigo sobre o antológico desfile do Paulo Barros em 2004. O segundo exemplo a que me refiro é o fato de o compositor Cadu ganhar a disputa de sambas-enredo na Mangueira após a sua quarta final consecutiva. Eu acompanhei o processo de forma íntima porque fiz um documentário sobre o dia dessa quarta final, intitulado TESOURO DO SAMBA. (Nota em 14.04.09)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Dois Sonhos e mais alguns outros&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Este Carnaval de 2004 ficará na história por vários motivos, que nem cabe enumerar aqui. Mas, acima de tudo, este carnaval ficará na história da MINHA vida por um motivo muito simples: foi neste Carnaval em que, através de dois exemplos concretos, eu tive a certeza de que ainda vale a pena lutar pelos nossos sonhos, e que, por mais impossíveis que possam parecer, eles podem SIM se transformar em realidade, com dedicação, paixão e perseverança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo Barros foi a prova disso. Só foi escolhido pela Tijuca porque a escola estava no fundo do poço, cotadíssima para ser rebaixada, a quadra há muito tempo não se via tão às moscas. Não havia dinheiro; não havia motivação das pessoas. Mas tudo isso era secundário: ele tinha um sonho, e fez esse Carnaval como se fosse o último, e concentrou todas as suas energias no que era seu objetivo último. O tema de seu Carnaval foi exatamente este: como o (louco) artista luta por um sonho que a todos parece impossível, e como esse sonho está intimamente ligado ao próprio dia-a-dia do processo da criação. Lembro que muitos chegaram a rir, a caçoar, do refrão final da escola que falava do sonho da Tijuca em ser campeã do Carnaval. Mesmo com um desfile acima de tudo "anti-tecnicista", o vice-campeonato, na frente das poderosas Mangueira e Imperatriz, calou todos os possíveis críticos. Quem agora há de duvidar na possibilidade de um sonho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o segundo exemplo, que inclusive acompanhei de forma mais íntima, eu me calo, porque já falei o suficiente, porque aqui não é lugar para confissões. Três ou quatro amigos aqui da lista devem suspeitar do que digo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra quem tem um sonho, por menor que seja, este Carnaval teve um sentido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-2023612870723255537?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/2023612870723255537/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=2023612870723255537' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/2023612870723255537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/2023612870723255537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/04/dois-sonhos-e-mais-alguns-outros.html' title='Dois Sonhos e mais alguns outros'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-8675847590494512294</id><published>2009-04-14T19:58:00.001-03:00</published><updated>2009-04-14T19:59:33.769-03:00</updated><title type='text'>Dois Paulos</title><content type='html'>&lt;em&gt;um texto antigo sobre a ascensão de Paulo Barros e seu antologico desfile de 2004...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois Paulos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este Carnaval de 2004 foi marcado por duas visões, por dois Paulos. Suas semelhanças, suas diferenças, suas respectivas reações a um senso de oportunidade refletem não só o que é o Carnaval, mas nos dizem do que é feita a vida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro Paulo, o Paulo Barros, lutou por um sonho. Há anos e anos nos grupos de acesso, finalmente teve a oportunidade de assumir o carnaval de uma escola do Grupo Especial. As condições, no entanto, não eram as melhores, mas tudo isso lhe pareceu secundário. Tudo o que lhe era desfavorável foi transformado em virtude, em fermento para o desabrochar de seu processo criativo. Seu enredo falava exatamente isso: da ligação íntima entre o sonho e o processo da criação. O enredo que aparentemente tinha uma abordagem "tecnicista" e descritiva teve uma leitura absolutamente íntima e metafísica. Não é a partir de uma fissura ou de uma oposição, mas exatamente através de uma conjunção, entre realidade e fantasia, entre o sonho intangível do artista visionário e a concreta rotina que envolve os afazeres diários do processo de criação, que Paulo Barros fez um exame sutil e contundente das falsas contradições que envolvem o Carnaval de hoje, ou ainda da necessidade de o Carnaval de hoje resgatar a possibilidade do sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o primeiro Paulo fez das dificuldades matéria-prima para seu Carnaval do sonho, o segundo Paulo, o Paulo Menezes o utilizou como subterfúgio, como sinal de impossibilidade. Muito havia de se esperar do Carnaval da Ilha deste ano, em que o tema da Atlântida representava toda uma busca por um carnaval autenticamente insulano, um resgate ao espírito típico da escola. Mas na verdade o mote "com dinheiro ou sem dinheiro eu também brinco", acabou servindo como uma "desculpa", ou como mero sinal de conformismo, para uma total falta de ousadia e de criatividade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-8675847590494512294?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/8675847590494512294/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=8675847590494512294' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/8675847590494512294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/8675847590494512294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/04/dois-paulos.html' title='Dois Paulos'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-1519826005289651109</id><published>2009-03-09T22:12:00.002-03:00</published><updated>2009-03-09T22:15:26.723-03:00</updated><title type='text'>Mangueira, equilíbrio e intimismo: Cadu e sua "estética do artesanato"</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;br /&gt;"Eu não vivo no passado; é o passado que vive em mim"  Paulinho da Viola &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Após três anos em que foram derrotados na final, Cadu e seus parceiros finalmente venceram a disputa na Mangueira com relativa facilidade (a decisão na final foi quase unânime) em sua quarta final consecutiva. Estesamba é uma espécie de síntese da visão dos compositores sobre o gênero, e ao mesmo tempo consolida sua progressiva evolução, sendo o samba mais trabalhado da parceria.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para Cadu, não se trata de fazer um samba de invenção: sua proposta é trabalhar de forma incansável e minuciosa dentro dos estreitos limites do gênero. É um samba mais de transpiração que de inspiração, o que de forma alguma significa um demérito: é nítida a preocupação dos autores em buscar a palavra mais exata, o acorde mais perfeito, o tom exato. Dessa forma, a grande chave que sintetiza a impressão causada pelo samba é o equilíbrio. É essa obsessão pelo acabamento que cristaliza a "estética do artesanato" dos compositores.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas quem pensa, a partir dessas linhas, que se trata de mero acabamento mecanicista está muito enganado. Por trás de sua aparente estrutura que beira o convencional, desvela-se como nítida expressão pessoal, e daí resume a incrível sutileza desse samba. (E daí lembramos os recursos de uma arte que luta intensamente para esconder seus supostos vestígios de expressão pessoal, mas que acaba paradoxalmente por revelar-se - ou seja, a estética classicista, desde um filme de Howard Hawks até um romance de Tolstoi...). Sua expressão autoral está na leitura do enredo pelos autores como uma inevitável expressão de saudade e melancolia. Nesse enfoque, tudo se encaixou plenamente ao estilo dos autores de preferirem os meios-tons e achave em tom menor. O início do samba, numa espécie de "flashback", já evidencia a estratégia dos autores: é a partir da herança partida do hoje que se olham as maravilhas do ontem. Nesse passeio íntimo pelas riquezas deMinas, seu olhar pelo passado nunca é meramente saudosista e antigo (apesar de claramente tender a isto), mas se conjuga sutilmente com a necessidade do presente. Vejamos a estratégia dos autores em seu refrão do meio:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;"Por belos recantos, andei - Das suas águas provei - De mansinho, eu peço passagem - A Mangueira vai seguir viagem"&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os dois primeiros versos tratam das belezas do passado; o terceiro, reforça o tom de intimidade e sutileza que já existia nos dois primeiros versos. Mas o quarto é o mais elucidativo: mostra que mais que simples viagem aopassado, é um pequeno estudo sobre o papel do tempo. Seguindo a viagem pelos recantos, os autores mostram que a vida precisa continuar, que não se pode viver eternamente no passado, que o trem precisa seguir até o seu destinofinal. No fundo não deixa de ser triste, porque revela que é impossível permanecer lá para sempre, ou seja, não deixa de ser um olhar humilde sobre a fugacidade da vida. Todo o samba se estrutura na idéia do percurso e na problematização da revisitação do passado. A primeira estrofe apresenta a questão de forma bastante sugestiva ("A estrada do sonho" / "Real desejo de poder e ambição"). Com "a estrada do sonho", os autores resumem toda a idéia de percurso que caracteriza o samba, além da visão do passado como refúgio idílico impossível. Mas no verso seguinte, o "real desejo" traz de volta a importância da realidade (e a estrada é conhecida como "estrada real"...) &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por fim, em duas partes o samba coroa a fusão de presente e passado e sua estrutura do percurso com uma idéia de destino. A primeira, mais descritiva, é em "eu chego ao Rio com certeza". Mas a segunda é mais poética, uma das chaves de elucidação do discurso dos autores: "As trilhas bordadas em ouro / levaram tesouros a caminho do mar". A ambigüidade dos versos revela a sutileza desse samba: por um lado, um recurso negativo, já que a chegada ao mar representa o escoamento das riquezas para fora do país, uma perda de identidade. Por outro, positivo, já que o percurso e a viagem acabaram sendo bem-sucedidos. O mar surge, então, com inevitável força, como elemento simbólico, valorizado pela melodia, que ganha contornos mais líricos. É em direção a esse mar, como síntese entre o exílio e o encontro, que segue todo o percurso do samba por um rastro de passado perdido.&lt;/p&gt;&lt;div align="right"&gt;15/01/2004&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-1519826005289651109?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/1519826005289651109/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=1519826005289651109' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1519826005289651109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1519826005289651109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/03/mangueira-equilibrio-e-intimismo-cadu-e.html' title='Mangueira, equilíbrio e intimismo: Cadu e sua &quot;estética do artesanato&quot;'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-1189107533770325175</id><published>2009-02-16T12:39:00.004-03:00</published><updated>2009-02-16T12:41:23.216-03:00</updated><title type='text'>Sambas 2009</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Portela 2009&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O samba da Portela, fato comum aos últimos sambas do Junior Escafura, prima pela precisão, pelo acabamento. Não tem um único defeito: descreve o enredo com precisão, tem variações melódicas adequadas, pausas para o canto ("Liberdade"), momentosl evemente acelerados para mesclar o ritmo. Tudo com extremo bom gosto, trabalhado com enorme cuidado. Nisso lembra a linha dos sambas do Cadu e Gabriel. Soluções de letra de grande elegância e poder de síntese ("Das trevas renasce o amor", "palácio da saudade"), uma variação rítmica de inventividade ("São vinte e uma estrelas que brilham no meu olhar - Se eu for falar da Portela não vou terminar" quando os versos são estruturados num ritmo que dá uma idéia de enumeração longa, isto é "são muitos títulos e há tanto a se falar sobre a Portela…").&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo perfeito, tudo de muito bom gosto. Só tem um detalhe: acontece que o enredo fala de amor, e o amor (para mim pelo menos) é risco, é entrega, é paixão, é algo que não tem medidas, é desmedido, desmesurado. E esse samba da Portela é tudo, menos um samba apaixonado pela possibilidade de abrir seu coração (o que no fundo, diga-se de passagem, é a essência do samba). Ou seja, um samba técnico, frio, extremamente correto e preciso para falar de um sentimento como o amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Viradouro 2009&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu gostei do samba da Viradouro, que tem a cara dos sambas do Flavinho Machado, especialmente pelo "tom afro" de parte do enredo. Falando em enredo, é ótimo ver o Milton Cunha de volta mas sinceramente achei o enredo um tanto maionésico, misturando o tema afro com um tom ecológico meio institucional sobre a Bahia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ponto forte do samba são os dois refrões, em que o samba explode, com uma melodia irresistível (Um dia oxalá iluminou), apesar de um pouco deja vu em relação a outros sambas da dupla. Gostei especialmente do refrão do meio, que talvez seja o refrão mais bonito do Carnaval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira parte tem um ritmo gostoso e suave, típica dos sambas da parceria. Mas a segunda parte é irregular, até um final que chega a ser de mau gosto, pois o samba embola e a própria melodia vai pro espaço ("A água deixa o céu e se abraça com o chão - Renova a energia sob as bençãos de um trovão - Vermelho e branco que paixão"). Além disso, tenho dúvidas se a letra consegue descrever todo o enredo, especialmente em toda essa parte técnica, podendo perder pontos por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tijuca 2009&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo ver no samba da Tijuca tudo isso que muita gente está dizendo. Acho um samba mais do mesmo. Consigo ver méritos na primeira parte, na melodia e em dois versos que eu gosto bastante, porque tem uma poesia simples (O meu Borel visto de cima é mais bonito - eu vou alçar ao espaço). O refrão do meio também tem momentos de singeleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a segunda parte eu acho meio fraca, especialmente o verso (De heróis das estrelas, um céu). Acho que é um samba bom pro desfile, especialmente pro desfile leve e irreverrente da Tijuca, mas em termos de samba-enredo em nada acrescenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, acho MUITO triste que os compositores se dediquem mais à "filial" do que à "matriz", dados os bons resultados da Tijuca recentes (i.e mais chances de voltar às campeãs e receber mais grana…).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mangueira 2009&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Lequinho está estabelecendo um novo ritmo, uma "nova cara" (colocando nos termos do enredo) aos sambas da Mangueira: ao invés do samba cadenciado, melódico, da emoção dos sambas típicos do Hélio Turco, agora a Mangueira entra na era do samba competitivo. De indiscutível primor melódico e em termos de letra, o samba da Mangueira é guerreiro, como "a cara da escola" de agora, mas falta a sofisticação, a inovação, o tom surpreendente de alguns dos sambas do Lequinho que tanto fazem falta. Aqui há uma única passagem (Cada lágrima que já rolou - Fertilizou a esperança - Da nossa gente valeu a pena). Ainda assim, é incrível como o Lequinho consegue moldar uma energia para o samba, recurso que esbarra na marcha ou mesmo no jingle, mas que ele consegue trabalhar com um certo bom gosto, trazendo um certo "axé", uma "pegada" para o samba ("valeu a pena", "sou povo, sou raça", "sou a cara do povo"). Recursos que são a síntese do que se busca para o samba da Mangueira, que eu particularmente começo a torcer o nariz, embora reconheça sua eficiência. O cuidado em compor as parcerias e moldar alianças também tem se mostrado a marca do Lequinho na Mangueira, no aperfeiçoamento desse "estilo competitivo" que é principalmente a luta da escolha do samba na quadra, especialmente numa escola tão competitiva (e política) quanto a Mangueira, mas é curioso percebermos que a mudança dessas parcerias pouco alterou o seu caminho particular em termos da sua visão de samba-enredo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-1189107533770325175?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/1189107533770325175/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=1189107533770325175' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1189107533770325175'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1189107533770325175'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/sambas-2009.html' title='Sambas 2009'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-395780814339938715</id><published>2009-02-16T12:39:00.002-03:00</published><updated>2009-02-16T12:39:49.963-03:00</updated><title type='text'>Sambas 2009: Beija-Flor</title><content type='html'>&lt;p&gt;Algumas mensagens sobre os sambas de 2009 do Grupo Especial... a primeira é uma bem informal sobre o belo samba da Beija-Flor&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Beija-Flor 2009&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Com um pouco mais de calma, escrevo aqui sobre um tema: o samba da Beija-Flor de 2009. Fui ouvir o samba do Tom Tom só depois do resultado final, e fiquei um pouco desconfiado dada a reação de todos de surpresa, pois o samba do Claudio Russo seria antológico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao ouvir o samba eu tive uma surpresa, pois fiquei fascinado com a beleza do samba!! É um samba mais leve que geralmente a Beija-Flor traz, e achei um ato de generosidade a vitória dessa samba, de forma que confesso que fiquei emocionado ao ouvi-lo. Isso somado à beleza da gravação (para mim é indiscutível que foi o samba mais bem gravado de todo o CD, com andamento gostoso e acordes bastante bonitos...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tecnicamente o samba tem algumas falhas, e me surpreende que o Laila tão perfeccionista tenha se rendido ao samba, mas de fato o samba é irresistível. Há muitas repetições da palavra ”banho” ou seus derivados. No refrão final os versos “Embala eu babá feito um rio de magia / Que deságua luxo e cor” embolam um pouco, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, como dizia, o samba é irresistível e que bom que ganhou! Há soluções tão simples e tão bonitas que me emocionaram nesse samba. A letra é fabulosa, tem um olhar leve sobre o enredo, até mesmo descontraído, com tiradas geniais “O banho foi excomungado”. Há versos simples, mas de grande beleza (adorei os quatro versos finais da primeira parte e o refrão do meio. Adoro o trecho “As águas rolaram/As mentes lavaram” mesmo sabendo que falta um complemento). A letra é de enorme poder de síntese. Adorei o fato de um francês descobrir a importância do banho. A melodia é rica, tem variações, espaços para o canto, etc. O samba não é tão sofisticado quanto o da Mocidade que é o meu preferido, mas de longe é o samba que mais me fascinou nesse ano de 2009. E justamente esse samba, dessa forma, vir da Beija-Flor eu achei que foi um gesto de generosidade do Laila, pois ele não se importou com o tecnicismo da letra e preferiu um samba que tivesse o espírito do desfile e achei isso muito bonito.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O samba do Claudio Russo é bom, mas preferi esse do Tom Tom. A letra dos dois nem se compara.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-395780814339938715?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/395780814339938715/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=395780814339938715' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/395780814339938715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/395780814339938715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/sambas-2009-beija-flor.html' title='Sambas 2009: Beija-Flor'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-1194269388099398257</id><published>2009-02-16T12:12:00.000-03:00</published><updated>2009-02-16T12:13:10.067-03:00</updated><title type='text'>União de Jacarepaguá 2004</title><content type='html'>&lt;em&gt;texto sobre a obra-prima que foi o samba da União de Jacarepagua em 2004. Texto meio confuso e longo, mas que pelo menos registra a obra-prima que é este samba. (em 16/02/2009)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;União de Jacarepaguá 2004&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o samba-enredo contemporâneo se debruça sobre um dilema. Na questão da letra, de um lado, uma necessidade de ser descritivo a ponto de abordar em sua exposição a integralidade do enredo e a disposição (em alas e alegorias) da escola na Avenida; de outro, de ser sintético e com expressões fáceis para tornar o samba de mais rápida assimilação. Na melodia, por um lado ser um samba de apelo cada vez mais popular, por outro, ser uma samba com mais nuances melódicas e repleto de meias-pausas e variações rítmicas em relação ao samba da década de 80, que seguia muito mais à risca suas convenções particulares (tanto rítmicas quanto melódicas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este samba da União de Jacarepaguá é uma verdadeira jóia por vários aspectos, entre eles o de ser uma reflexão profunda sobre esse hiato. Seu complexo projeto é na verdade o de reunir as duas tendências, resgatando um samba-enredo de origem mais clássica (até mesmo o samba dos anos 60), mas acrescentando-lhe uma roupagem contemporânea, seja no sentido de presentificar suas formas seja como meio de compatibilização às necessidades atuais do desfile e da disputa de samba-enredo dentro da escola. Temos então um samba de 24 longos versos, além dos oito que compõem os refrões, que descreve perfeitamente o enredo de forma clara mesmo para quem está sendo apresentado a este pela primeira vez, integralmente tomado por expressões simples e objetivas, com dois refrões fortes (especialmente o do meio) típicos dos sambas atuais. Por isso, na verdade é um samba popular, que só não se revela ainda mais devido à sua extensão, mas que não busca as quebras rítmicas e melódicas de uma vertente do samba-enredo atual (Gusttavo, Lequinho, Wilsinho Paz, etc.). Ou seja, não é propriamente um samba de invenção, no sentido de buscar novas formas de expressão para o gênero, mas é um samba de continuidade, de diálogo com uma cadência rítmica mais típica dos anos 80 e de uma estrutura de letra dos anos 60. Fato este que está longe de desmerecê-lo, pois sua vocação é exatamente esta: o de mostrar que não está necessariamente dissociado do apelo popular um bom gosto melódico e um requinte de composição. Por outro lado, quando dizemos "popular", pensamos na comunidade, enfim nas pessoas que tem uma certa intimidade com o gênero, e não nos "turistas" que eventualmente compõem o público da Sapucaí ou que desfilam nas escolas. Ou seja, popular é o público que freqüenta os desfiles do Grupo de Acesso, tipicamente diferente do que atualmente assiste ao Grupo Especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se não é um "samba de invenção" e se demonstra uma vocação mais popular, isto não implica em absoluto que o samba seja de pouca criatividade. Ao contrário, este samba de Jacarepaguá se revela como um verdadeiro assombro em termos de sua força arquitetônica, ao construir em cada verso e cada nota, sem nenhuma necessidade de precipitação que o leve para um desfecho sorrateiro, uma leitura do enredo de supremo bom-gosto e requinte: não há uma única palavra ou acorde que não esteja perfeitamente encaixado no samba ou que destoe de um conjunto que suplanta sua simples expressão individual.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O ápice dessa tendência está na extraordinária segunda parte do samba, que - sem nenhum exagero - passa a ser peça obrigatória em qualquer antologia de samba-enredo. Chega-se quase ao limite das potencialidades de um samba atual: está para os nossos tempos assim como o que a "Aquarela Brasileira" representou para os seus. Nos primeiros cinco versos apresenta-se a diversidade das belezas naturais do Rio de Janeiro, com destaque para a singeleza das variações melódicas dos dois primeiros versos (observe, por exemplo, como, no primeiro verso, há uma gradação do agudo ao grave de extrema maestria e habilidade de composição, e como no segundo, se foge,&lt;br /&gt;tanto em termos rítmicos quanto melódicos, da mera repetição do verso anterior). Em seguida, o samba passa a ser narrado em primeira pessoa, com o uso reiterativo de "sou" ou "eu sou", mas nunca como mero espelho de pobreza vocabular, e sim como recurso de expressão, sendo que a melodia nitidamente aponta para a consciência da repetição como efeito expressivo. Os três primeiros versos, de rara beleza melódica, poderiam apontar para um crescendo muito abrupto, tornando, nesta progressão, o samba agudo demais em seus versos finais (vejam por exemplo o caso do samba da Mangueira de 1992, sobre Tom Jobim, em que o crescendo é linear). Mas os autores no verso seguinte elaboram um recurso de extrema sofisticação, trazendo de novo o samba para o mais grave, para em seguida, dois versos adiante, novamente retornar aos acordes mais agudos, revelando a enorme variação melódica da obra e a estratégia dos compositores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apostando num tipo de composição que caminha na contramão do "trash enlatado" ou do fast food que contamina os desfiles atuais, revelando a destacada ousadia e coragem tanto do Presidente da escola quanto de sua ala dos compositores, a União de Jacarepaguá, em seu terceiro ano consecutivo no Grupo A, aposta num mesmo estilo refinado de samba-enredo, em consonância com os dois anos anteriores, consolidando uma identidade musical para a agremiação. Este samba, da mesma parceria do também belo samba de 2002 (sobre o sonho de voar), potencializa vários dos avanços do verdadeiro tour de force estilístico que era o samba de 2003, de outros autores, confirmando um trajeto de continuidade e de influência mútua que revela que, ao que tudo indica, os deuses da inspiração sopram para as bandas de Jacarepaguá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda&lt;br /&gt;23/01/2004.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-1194269388099398257?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/1194269388099398257/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=1194269388099398257' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1194269388099398257'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1194269388099398257'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/uniao-de-jacarepagua-2004.html' title='União de Jacarepaguá 2004'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-1354525754257855273</id><published>2009-02-16T12:04:00.001-03:00</published><updated>2009-02-16T12:04:48.927-03:00</updated><title type='text'>Unidos de Bangu 1980</title><content type='html'>Amigos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;deparei-me recentemente com esse desconcertante samba-enredo da Unidos de&lt;br /&gt;Bangu, de 1980. "Juparanã, a lagoa encantada". Sua simplicidade é&lt;br /&gt;comovente:a melodia é linear, os dois refrões com dois versos de igual&lt;br /&gt;melodia. No entanto, é um típico samba-enredo: simples, despretensioso e&lt;br /&gt;mágico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idéia dos compositores é a mais típica da essência do samba e do carnaval.&lt;br /&gt;A lagoa Juparanã, quando tudo apontaria para parecer simples como qualquer&lt;br /&gt;outra, de repente se vê modificada: é uma fonte riquíssima, "reino de anões&lt;br /&gt;e fadas", um "mundo de fantasia". Nesse "mergulho", termo felicíssimo, que&lt;br /&gt;coroa essa simbiose da idéia da lagoa em si com uma idéia de inserção&lt;br /&gt;metafórica, a superficialidade comum do nosso dia-a-dia se vê transformada&lt;br /&gt;com o reino de sonhos do nosso Carnaval. A Sapucaí (ou melhor, a Presidente&lt;br /&gt;Vargas, porque o desfile foi anterior à sua construção) não deixa de ser uma&lt;br /&gt;lagoa encantada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao final, numa ingenuidade bucólica que se torna comovente por sua singela&lt;br /&gt;simplicidade, a profecia do samba se realiza. A rima fácil, até de um gosto&lt;br /&gt;duvidoso, é usada assim mesmo, porque acima de tudo fecha a idéia do samba:&lt;br /&gt;"Você vai ver". Qualquer um que ali esteja também pode ser uma das ninfas&lt;br /&gt;douradas que se banham em Juparanã. O espectador torna-se parte da história&lt;br /&gt;e banha-se no cenário iluminado da simples, mágica e profética história da&lt;br /&gt;escola de Bangu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí vai a letra do samba: estou devendo a relação de compositores...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juparanã, lagoa encantada&lt;br /&gt;Palco da mitologia&lt;br /&gt;Reino de anões e fadas&lt;br /&gt;Mundo de fantasia&lt;br /&gt;Mergulhei na poesia&lt;br /&gt;De raro esplendor&lt;br /&gt;Minha escola mostra agora&lt;br /&gt;A história que Pai Velho me contou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juparanã, Juparanã,&lt;br /&gt;A lagoa encantada protegida por Tupã&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lindas e frondosas matas&lt;br /&gt;Cachoeiras e cascatas&lt;br /&gt;De mistérios e magia&lt;br /&gt;Ninfas douradas&lt;br /&gt;Permeiam a lagoa encantada&lt;br /&gt;Num cenário de festa&lt;br /&gt;Os pássaros compõem a sinfonia&lt;br /&gt;O arco-íris ao amanhecer&lt;br /&gt;Anuncia um novo dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você vai ver, você vai ver&lt;br /&gt;Boitatá e caipora e o saci pererê&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-1354525754257855273?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/1354525754257855273/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=1354525754257855273' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1354525754257855273'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1354525754257855273'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/unidos-de-bangu-1980.html' title='Unidos de Bangu 1980'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-5491483077647042581</id><published>2009-02-16T12:02:00.000-03:00</published><updated>2009-02-16T12:03:01.899-03:00</updated><title type='text'>Viradouro 2003</title><content type='html'>Texto sobre o samba do Gilberto Gomes e Gustttavo na Viradouro em 2003, um belíssimo samba, o último grande samba da parceria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Viradouro 2003&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há sambas que são tão singelos que quase impedem que sejam cantados. Esse é o caso do samba da Viradouro deste ano. A melodia é um acalanto: ficamos estáticos, boquiabertos, não conseguimos cantar ou sambar. Apenas deixamos que um arrepio de alma prossiga conosco. É um samba que nos deixa completamente impotentes, porque só nos resta ouvir: é quase como receber uma prece. É também um samba de homenagem, e é tudo o que uma homenagem pode ser: um abraço afetuoso, uma palavra de carinho. Depois de dois sambas de grande rigor formal e força inventiva, a dupla de compositores Gilberto Gomes e Gustavo, agora hexacampeões pela escola, se rendeu ao enredo, curvou-se à relevância da homenagem. Todo o criterioso trabalho labiríntico de construção formal típico da dupla se rendeu à supremacia da melodia, à necessidade do samba também ser um ato de devoção e não apenas de construção. Com isso, a dupla parece ter avançado doze vidas, com a consciência da necessidade de uma revolução dentro da revolução. É esta afetividade respeitosa que o torna uma das obras de maior maturidade do Carnaval dos últimos tempos. É revelar-se profundamente humano; é colocar todo um trabalho formidável de criação, um esforço tamanho de composição muito abaixo de seu tema, muito aquém do que o Carnaval pode despertar nas pessoas que o vivem. É por meio deste exercício de humildade que a dupla de compositores, agora com o apoio dos novos parceiros, atingiu o que parecia impossível dadas as suas composições anteriores: compor o samba como um ato de um desnudamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-5491483077647042581?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/5491483077647042581/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=5491483077647042581' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5491483077647042581'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5491483077647042581'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/viradouro-2003.html' title='Viradouro 2003'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-669992810801836994</id><published>2009-02-16T11:59:00.000-03:00</published><updated>2009-02-16T12:00:35.680-03:00</updated><title type='text'>samba concorrente Mangueira 2003 - Lequinho e Amendoim</title><content type='html'>&lt;em&gt;Texto muito bacana que escrevi sobre o antológico samba de Lequinho e Amendoim que perdeu a final na Mangueira para o Carnaval de 2003. (em 16/02/09)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Carnaval de 2003 poderia ser embalado por um samba quase antológico: é o samba concorrente na Mangueira pelos compositores Lequinho e Amendoim, que buscavam um bicampeonato, já que o samba da escola em 2002 foi de autoria da dupla. Ao contrário do samba de 2002, que, apesar de ter um papel fundamental no campeonato da Mangueira, esbarra em inúmeros chavões melódicos e lugares-comuns, ilustrando de forma apenas convencional o enredo sobre o Nordeste, desta vez trata-se de um samba de riqueza singular e, dentro de seus limites, inovador, pelo nível de envolvimento da parte dos compositores, um trabalho de entrega pessoal, com uma carga de interioridade quase inacreditável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para traduzir a bela sinopse da escola, que contou a saga em claros tons épicos, os compositores optaram por uma linha ousada. Mas o que torna sua escolha particularmente comovente é que toda a linha melódica do samba se baseia numa idéia não apenas de fé e perseverança, mas essencialmente de iluminação. Com isso, toda a estrutura do samba se baseia num percurso, num caminho místico que não tarda a se desvelar numa verdadeira procissão em busca de uma redenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pulsando como um verdadeiro coração, já que o amor é um dos frutos mais marcantes desse caminho de busca, o samba se equilibra entre um conjunto de sístoles e diástoles, com um nível de ambigüidade raramente visto num samba-enredo, especialmente em sua primeira parte. Entre os tons altos e baixos, entre os crescendos e diminuendos, o samba percorre os caminhos sinuosos e desiguais da narrativa épica do povo egípcio com um vigor quase profético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O início do samba já ilustra perfeitamente essa opção. “Mangueira...canta.../A saga de um povo sonhador/Mangueira prega /as palavras do Senhor ô ô ô”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses primeiros versos, com destaque para o trecho “Mangueira prega”, destaca-se uma idéia de repetição, que o torna quase como uma ladainha. O “ô ô ô” final, mais que completar o decassílabo, assim como o segundo verso, já apresenta o painel de ambigüidade melódica, em tons baixos, que caracteriza toda a primeira parte do samba. Aí também surge a figura do narrador épico, como uma espécie de “contador de histórias”, que confere ao samba perfeita coerência em termos de ponto de vista com a sinopse. A Mangueira “canta uma saga” e “prega as palavras do Senhor”. A incorporação da ladainha na estrutura dos versos iniciais do samba, como um caminho para uma busca divina, nos faz lembrar o mesmo recurso de “Círio de Nazaré” (São Carlos 1975). Mas há uma pequena diferença, muito significativa. Enquanto no samba de São Carlos o modelo era a dúvida, aqui há a certeza deste caminho: como um percurso histórico, é a saga de um povo que já teve seu final, a redenção. Enquanto os romeiros do Círio de Nazaré clamam por sua salvação (Ó Virgem Santa, olhai por nós/ olhai por nós, ó Virgem Santa / pois precisamos de paz), o narrador épico da Mangueira ao contar a história já revela sutilmente conhecer a vitória e as virtudes de seu povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa forma, logo a seguir do começo tenebroso, a oscilação, o crescendo, o tom levemente mais alto. “E derrama em verde e rosa a história / em poesia”. Mas logo em seguida, o caminho de volta, a dúvida. “Que ao povo oprimia” E de novo surge a visão profética, a iluminação. “Mas existia um clamor e um dito ecoou liberdade”. Até terminar a primeira parte com uma síntese das sístoles e diástoles da primeira parte do samba: “Uma estrela brilhou, anunciando o libertador”. Neste verso de melodia complexa, seu tom baixo e levemente sinistro revela de forma muito sugestiva o berço do nascimento do redentor: um mundo de trevas e lama. A última sílaba no entanto marca de forma profética uma espécie de revelação (li-ber-ta-DOR).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a apresentação do narrador épico, o estabelecimento do percurso da redenção como uma espécie de ladainha e a descrição do mundo tenebroso que geriu o nascimento do salvador, o samba está pronto para seu primeiro refrão. Após o anúncio do libertador, os princípios da fé podem afinal ser descritos. Se o refrão do meio tende a ser em geral apenas uma espécie de passagem para a segunda parte, aqui todos os pilares desse novo mundo anunciado são expostos pelos compositores. Como uma verdadeira declaração de princípios, é um refrão atípico, com cinco versos bastante longos. Mas não deixa também de ser uma perfeita transição, pois a partir da segunda parte o samba sofre uma brutal transformação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o estabelecimento do tema central do enredo e as idéias do salvador, o samba abandona sua poesia do mistério e da ambigüidade para se revelar inesperadamente lírico. Os versos mais curtos, límpidos, seu tom mais alto, desvelam um típico samba mangueirense. Num crescendo contínuo, o samba coroa o progressivo caminho de vitórias e de conquistas até seu ideal final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir do verso “Brasil!”, o samba incorpora uma ternura e uma euforia quase impensáveis quando ouvimos os taciturnos versos de abertura do samba. Nessa parte final, os compositores fazem uma associação muito feliz entre um tripé que percorre toda a estrutura do enredo: Egito/Brasil/Mangueira. Por que a trajetória longínqua do povo egípcio poderia interessar ao Brasil de hoje? Ou ainda, ao Carnaval de hoje? Qual a harmonia entre esses ideais e o desfile da Mangueira? Sim, porque queremos do Brasil um mundo de paz e esperança. Ou ainda, sim, porque queremos que das dificuldades do dia-a-dia da humilde comunidade da Estação Primeira surja um caminho de vitória que se confunda com o próprio desfile da escola na Sapucaí. O crescendo da segunda parte do samba se torna então um canto poético e apaixonado em torno da sua escola de coração. E do épico, o samba se faz lírico. Não por acaso, é em termos melódicos onde se concentra o clímax do samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mangueira...&lt;br /&gt;Meu mandamento é te amar cada vez mais&lt;br /&gt;Hoje o meu samba é a paz, &lt;br /&gt;e o mundo é mais feliz”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a grande declaração de amor dos compositores ainda estava para ser feita. O refrão final da saga mangueirense, o mesmo caminho trilhado pela apaixonada visão dos compositores, se encerra com um tom entusiástico absolutamente desconcertante. Com uma entrega passional e uma sinceridade estarrecedora, afirma-se, às claras, sem nenhuma preparação ou qualquer recurso literário que esconda suas intenções, “eu sou feliz!”. E não satisfeito, inclusive desprezando a falta de métrica do verso de oito sílabas, repete-se mais uma vez: “eu sou feliz!”. Não há então como fugir da sentença, fingir não ouvir, tentar que os versos nos passem despercebidos. Numa objetividade cega, num grito de otimismo, simples, profundo e poético, os compositores encerram sua missão final: assim como a saga descrita, o samba composto por eles também chega ao seu final apoteótico. E quem acompanha o samba chega à sua redenção, recebe sua profética iluminação. Nada mais típico de um samba tipicamente mangueirense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*   *   *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao nascer de uma ensolarada manhã de domingo, a Mangueira finalmente anunciava seu samba para o Carnaval de 2003: era o de Marcelo d´Aguiã, Bizuca, Gilson Bernini e Clóvis Pê. Estava selado o destino do samba de Lequinho e Amendoim: o esquecimento. Daqui a algumas semanas, quando a escola grava sua participação no CD das escolas de samba, e inicia seus ensaios, ninguém mais se lembrará deste memorável samba, que, à sua maneira, seguindo um projeto muito pessoal de samba-enredo, incorporou na própria estrutura do samba um caminho de redenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ativos mangueirenses que freqüentavam todos os sábados a quadra da escola diziam que o samba de Lequinho e Amendoim era uma decepção em relação ao samba do ano anterior, diziam que havia algo no samba que “não casava, que não se encaixava”. Claro, não casava com um projeto de samba-enredo que prima pelo trivial, pela emoção fácil e pelo discurso linear, que cisma em oferecer de cara todas as suas chaves. Mas o que é particularmente interessante é como, dadas todas as mudanças de tom, este projeto se revela em inteira continuidade com o samba de 2002: é o início que fala em “Mangueira canta”, é o trabalho invulgar com o refrão do meio, é o percurso como caminho lírico de paixão e iluminação, é até mesmo o bordão (quase inaudível desta vez) “bate no peito e diz”. Ou como, entre todas as descontinuidades e ambigüidades tão próprias ao tema em questão, surge uma visão perfeitamente mangueirense. Mas desta vez, até pela unanimidade em relação aos frutos do samba de 2002, surgiu uma postura mais corajosa e arrojada da dupla de compositores. Rebeldia sutilmente repreendida pela conservadora visão da escola. Uma pena. Dado o potencial impacto que um samba vencedor da Mangueira pode provocar em termos de moldar um certo inconsciente coletivo, não seria exagero afirmar que esse samba poderia ter uma influência marcante nos rumos futuros do samba-enredo. Só nos resta torcer que a dupla não acabe retroagindo para uma visão mais conservadora na próxima disputa. Ou então que troquem de escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*   *   *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A diferença entre o tom do samba de Lequinho e Amendoim e o do vencedor é clara. “Surge um caminho de luz pra mergulhar na história”. Enquanto a dupla olha sempre para o futuro, para o grupo vencedor, o caminho é o passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda&lt;br /&gt;14/10/2002&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-669992810801836994?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/669992810801836994/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=669992810801836994' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/669992810801836994'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/669992810801836994'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/samba-concorrente-mangueira-2003.html' title='samba concorrente Mangueira 2003 - Lequinho e Amendoim'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-2746759321076219822</id><published>2009-02-16T11:58:00.001-03:00</published><updated>2009-02-16T11:58:47.328-03:00</updated><title type='text'>Mangueira e Vila 2004: semelhanças e diferenças</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Mangueira e Vila 2004: semelhanças e diferenças&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sambas da Mangueira e da Vila Isabel para 2004 têm vários pontos &lt;br /&gt;em comum: ambos são homenagens a localidades (seja Minas ou Paraty), &lt;br /&gt;em que se usa uma idéia de percurso como resgate às riquezas &lt;br /&gt;naturais e culturais da região. Ambos são compostos por talentos de &lt;br /&gt;uma nova geração de compositores que, entre um acorde e outro, nunca &lt;br /&gt;se esquecem das necessidades competitivas do Carnaval atual. Mas &lt;br /&gt;talvez, do ponto de vista estilístico, mais interessantes que as &lt;br /&gt;semelhanças sejam as diferenças, especialmente quanto à abordagem do &lt;br /&gt;enredo usada pelos dois grupos de compositores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No samba da Mangueira, a viagem pelas riquezas de Minas se torna &lt;br /&gt;quase um pretexto para uma revisitação austera e melancólica a um &lt;br /&gt;passado distante e perdido. A crise se expressa através de uma &lt;br /&gt;saudade, a partir de uma impossibilidade de resgatar um tempo áureo &lt;br /&gt;de belezas vistas de um presente em que existe apenas um rastro, um &lt;br /&gt;resquício de um passado glorioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o samba da Mangueira investe na dor desse percurso, para a &lt;br /&gt;Vila ""é doce chegar até lá"". Se na Mangueira o caminho propicia o &lt;br /&gt;recurso à memória e ao passado, no samba da Vila a distinção entre &lt;br /&gt;passado e presente se desfaz, simplesmente não vem ao caso. &lt;br /&gt;Percorrer o caminho passa a ser uma espécie de ressurreição: é como &lt;br /&gt;se estivesse sempre percorrendo-o pela primeira vez. Daí provém a &lt;br /&gt;enorme energia e vigor do samba da Vila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A melodia é extremamente significativa para constatar a diferença de &lt;br /&gt;visão dos compositores: é só comparar ""as trilhas bordadas em ouro / &lt;br /&gt;levaram tesouros a caminho do mar"" com ""tanta beleza em Paraty / me &lt;br /&gt;embriagou e saí por aí"". Dois trechos de alta riqueza melódica, mas &lt;br /&gt;com pontos de vista estilísticos completamente distintos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a principal diferença entre ambos seja que enquanto o samba &lt;br /&gt;da Mangueira trilha esse passado por uma estrada de ferro, o da Vila &lt;br /&gt;percorre por um ""veio azul e branco"". Ou que enquanto a Mangueira &lt;br /&gt;trabalha com uma idéia de destino (""levaram tesouros a caminho do &lt;br /&gt;mar""), o da Vila busca um ideal de liberdade (""que construiu a &lt;br /&gt;liberdade em seu lugar"").&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda&lt;br /&gt;24/01/2004&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-2746759321076219822?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/2746759321076219822/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=2746759321076219822' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/2746759321076219822'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/2746759321076219822'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/mangueira-e-vila-2004-semelhancas-e.html' title='Mangueira e Vila 2004: semelhanças e diferenças'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-4189040152625682546</id><published>2009-02-16T11:56:00.003-03:00</published><updated>2009-02-16T11:58:20.397-03:00</updated><title type='text'>Tutiuti 2003: Paulo Barros</title><content type='html'>&lt;em&gt;Um texto interessante que escrevi sobre o antológico desfile do Paulo Barros pela Tuiuti, isso antes de ele se tornar a estrela que hoje é (em 16/02/09)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tuiuti 2003&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após uma comentada disputa de bastidores com a Vila Isabel, o Tuiuti recebeu o “de acordo” dos herdeiros do pintor para realizar seu enredo sobre Cândido Portinari no ano do centenário de seu nascimento. A responsabilidade era grande. Um dos maiores pintores modernos brasileiros, Portinari, em articulação com os princípios artísticos da Semana de Arte Moderna de 1922, traçou em suas telas um retrato social de um Brasil muitas vezes rural e interior sem abrir mão de uma estética experimentalista. O desafio era grande. A nova diretoria, que assumiu a escola recebendo um legado impressionante da diretoria anterior, conseguindo levar a escola ao Grupo Especial, rompeu com Paulo Menezes, a princípio ideal para um enredo de tal porte, contratando Paulo Barros, carnavalesco mais conhecido pela trajetória nas escolas do grupo B e de seu trabalho com materiais recicláveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desafio era grande, especialmente em se tratando de uma escola do Grupo de Acesso, com recursos limitados para traduzir tão ambicioso enredo. Entre tantas outras questões que o novo carnavalesco teria que se defrontar estavam, por exemplo, a das relações visuais entre a pintura erudita e a representação popular, as relações do pintor com o modernismo através de seu papel da ruptura contra o academicismo versus a estandardização dos atuais desfiles das escolas de samba, e, especialmente, a visão particular do pintor em relação ao Brasil e em especial ao olhar social de suas obras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se o desafio era grande, Paulo Barros conseguiu realizar o mais criativo desfile do Carnaval deste ano, exatamente por optar pelo seu oposto, negando o desafio, e visualizando a homenagem a Portinari com extrema simplicidade e em tons menores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário da opulência de um desfile com um olhar crítico sobre o painel social do Brasil ou ainda de uma reavaliação do processo artístico, Paulo Barros optou pela emoção ao invés do discurso, optou pela intimidade ao invés do olhar crítico. As mazelas da população de baixa renda revelam-se elementos de criação e, por meio do processo artístico, de transfiguração das dificuldades do dia-a-dia. Ao invés de valorizar Portinari como símbolo modernista ou como propagador da cultura brasileira no exterior, Barros preferiu vê-lo como o menino de Brodósqui, criando um enredo quase infantil. Simplificando os conflitos, rompendo um suposto academicismo, Paulo Barros percebeu que o Brasil das telas de Portinari é lindo, simplesmente porque é Brasil. E, com isso, acaba se revelando profundamente ligado com as raízes do Carnaval. É a origem modesta e a representação popular, é a presença do processo artístico, é a possibilidade do “ser-rei-por-um-dia”. Em suma, Portinari é um brasileiro, porque em suas telas, em sua vida, tudo é Brasil, tudo é carnaval. Fundindo todos esses aparentemente díspares elementos numa grande festa, Paulo Barros realizou um desfile memorável, porque, ao negar-se como discurso, ao negar-se como olhar, o desfile do Tuiuti acabou se revelando paradoxalmente tudo isso: um olhar profundo sobre a brasilidade e sua representação, dados os limites dos atuais desfiles das escolas de samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é só então, só a posteriori que entendemos as escolhas de Paulo Barros, desde a concepção da sinopse até a disputa do samba-enredo. Entendemos porque o belíssimo samba do Noca foi preterido pelo “samba-de-sempre” de Fernando de Lima e cia. Sim, o samba de Fernando de Lima encantou e surpreendeu toda a avenida, exatamente por sua sincronia perfeita com o enfoque do enredo. Fernando de Lima entendeu como ninguém o aspecto mágico do enredo, sua tendência ao infantil, ao universo de “sonhos e fantasias”. Opções melódicas como a dos versos como “Retratos da vida que em cores vivas eu descobri”, ou ainda “Vem pincel mágico iluminar / os meus versos e destilar / cores, fantasias” mostram como a estética do “falso encantamento” ou da “melancolia do enternecimento” que vem caracterizando os últimos sambas do veterano compositor se incorporam às “cores vivas” do enredo, sintetizando o tom misto entre o terno e o caloroso escolhido pelo carnavalesco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Facilitando o acesso a um enredo sobre uma personalidade não-popularesca, mas popular, Paulo Barros, em sua explosão de emoção e alegria, deu talvez a maior das lições do Carnaval 2003, rompendo muitos dos mitos da atual concepção do desfile de Carnaval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda&lt;br /&gt;30/06/03.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-4189040152625682546?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/4189040152625682546/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=4189040152625682546' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/4189040152625682546'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/4189040152625682546'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/tutiuti-2003-paulo-barros.html' title='Tutiuti 2003: Paulo Barros'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-8476116419268855157</id><published>2009-02-16T11:56:00.001-03:00</published><updated>2009-02-16T11:56:42.286-03:00</updated><title type='text'>Santa Cruz 2003</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Santa Cruz 2003&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após uma tumultuada disputa de bastidores com a Vila Isabel para assegurar sua ascensão ao Grupo Especial, a Santa Cruz abre o Carnaval do Grupo Especial de 2003 expondo um dilema extremamente característico do Carnaval desse ano: a correção ou a espontaneidade. Entre essa fissura, a Santa Cruz, que tantas vezes já foi injustiçada no Grupo de Acesso por seguir um caminho próprio, preferiu a primeira opção, preferiu adaptar-se às regras do jogo. Da mesma forma que os últimos desfiles da escola no Grupo de Acesso, a Santa Cruz optou pelo desfile técnico, em que nada poderia lembrar a Santa Cruz de meados da década de oitenta e início de noventa, justamente quando a escola conseguiu retomar alguma projeção. Nada poderia recordar uma escola que já teve Aroldo Melodia como puxador, que teve refrões como “quem não tem quiabo oferece caruru”, ou que já falou dos “bêbados ilustres” do Brasil, sempre com muito bom humor. Nada poderia resgatar a picardia do retorno da Santa Cruz ao especial, depois de quase vinte anos, com a irreverência do Pasquim e do “gip gip nheco nheco”. Após algumas grandes frustrações, como uma falta de luz, como a não-repercussão do desfile que traz de volta uma mulher ao posto de intérprete – e ninguém menos que Leci Brandão – a Santa Cruz empenhou sua última cartada em seu retorno ao grupo principal em 1997. Num desfile cheio de energia e vibração, com um samba-enredo leve e vigoroso, sobre as bandeiras, a Santa Cruz foi prejudicada num ano em que o descenso era de quatro escolas, tornando a disputa quase impossível para a escola da Zona Oeste. Era a hora, então, do desfile técnico, até porque algumas opções, como Cazuza, ou Abraham Medina, não tiveram a repercussão imaginada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Negando seu percurso, assimilando a necessidade do “desfile moderno”, a Santa Cruz em 2003 fez um desfile correto. O samba-enredo escolhido, do veterano Fernando de Lima, sintetiza o dilema em que se encontra a escola. É um samba correto, técnico, e exatamente nos intervalos em que se esquece do tom formal e busca um diálogo, alcança seus melhores momentos. É exatamente isso: nesse desfile, a Santa Cruz, sua comunidade se exibiu com um grito entalado na garganta. Antes de desfilar bem, era preciso agora mostrar aos outros que se poderia desfilar bem, que se tinha condições de desfilar como qualquer escola do Grupo Especial. É com base nessa preocupação em mostrar sua “maturidade”, em demonstrar seu “profissionalismo”, ao invés de simplesmente ser madura, ao invés de simplesmente desfilar, que a Santa Cruz bloqueou seu próprio potencial, escondeu-se numa redoma de vidro. O enredo era muito ambicioso: era sobre o teatro desde a sua formação, passando pela Grécia antiga, pelo teatro ocidental e oriental, até chegar ao Brasil. Era um enredo de pompa e luxo. Concebido pela esposa do presidente, foi desenvolvido por um carnavalesco jovem, que pegou o enredo no meio do caminho, e optou por cores fortes, como o rosa e o roxo, descaracterizando qualquer possibilidade de harmonia visual ente os setores da escola. Preferiu-se o histrionismo, ao invés da simplicidade, ou da presença do verde-e-branco. Preferiu-se o tom ambicioso a um enredo afetuoso, ou ainda a um enredo sobre a magia e a ilusão. Não se percebeu que essencialmente era um enredo que não tinha como não ser baseado na emoção, com a presença de tantas personalidades consagradas do meio artístico brasileiro. Mas agora não poderia mais haver espaço para a espontaneidade, para o devaneio, para a emoção. Por isso, a Santa Cruz fez um desfile triste, porque, ao invés de aproveitar a oportunidade há tantos anos lutada pela escola para retornar ao grupo, preferiu tentar mostrar que era uma escola como as outras, ao invés de tentar ser ela própria. Seu destino foi o previsível: os jurados, que desconheciam a escola, que ignoravam tudo o que acabou de ser dito, tudo o que estava em jogo, se limitaram a dar notas exatamente contra todo o critério técnico que a escola havia tanto buscado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda&lt;br /&gt;26/03/2003&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-8476116419268855157?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/8476116419268855157/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=8476116419268855157' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/8476116419268855157'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/8476116419268855157'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/santa-cruz-2003.html' title='Santa Cruz 2003'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-6556265607784228473</id><published>2009-02-16T11:55:00.002-03:00</published><updated>2009-02-16T11:56:00.159-03:00</updated><title type='text'>Mocidade 2003</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Os sambas-cartilha de Santana e Ricardo Simpatia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois dos enredos sobre a paz universal e cia. e da façanha de realizar um dos enredos mais impensáveis da história do Carnaval - a doação de órgãos - a Mocidade resolve fazer uma campanha contra os acidentes de trânsito, chegando inclusive ao descalabro de usar a figura de Ayrton Senna para mostrar ao povo como a alta velocidade provoca vítimas. Em prol do politicamente correto e das campanhas de utilidade pública, a Mocidade com estes dois enredos está para o que foi a Beija-Flor no início dos anos setenta, com seus enredos sobre o Mobral e o Brasil do ano 2000. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A síntese do discurso reacionário, burocrático e didático que busca a Mocidade está nos sambas de Santana e Ricardo Simpatia. Se em Villa Lobos, a dupla ainda consegue instantes de poesia, apesar de irregular, o novo discurso da escola parece ter se encaixado à perfeição no estilo dos compositores. Recheado de imperativos categóricos, permeado de acordes evangélicos que remetem a uma idéia de limite tênue entre vida e morte e de um sentido de missão/redenção, a dupla de compositores parece querer inaugurar uma nova linha - melódica e estilística - na safra de sambas-de-enredo atuais: o samba-cartilha. Torna-se assim pior que os referidos sambas da Beija-Flor, já que estes apenas descreviam as "glórias do Governo", enquanto os da dupla não apenas descrevem, mas sugerem que quem ouça passe a ter um certo tipo de padrão de comportamento. Se pensarmos que o Carnaval é por excelência a época da "inversão", da saudosa malandragem, da revisão dos padrões politicamente corretos, da critica aos costumes, o Carnaval da Mocidade pode ser considerado o "anti-Carnaval", e a verdade é que os sambas de Santana e Ricardo Simpatia são o hino perfeito para esse Carnaval possível: didáticos, burocráticos, reacionários.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-6556265607784228473?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/6556265607784228473/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=6556265607784228473' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/6556265607784228473'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/6556265607784228473'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/mocidade-2003.html' title='Mocidade 2003'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-1455526375339628984</id><published>2009-02-16T11:55:00.001-03:00</published><updated>2009-02-16T11:55:30.530-03:00</updated><title type='text'>Parque Curicica 2003</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Parque Curicica 2003&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há sambas que se justificam por um único verso, ou ainda por uma única palavra. Esse é o caso do memorável samba do Parque Curicica no Carnaval 2003, quando a escola pela primeira vez pisou o chão da Marquês de Sapucaí. O enredo sobre o Mercadão de Madureira a princípio parece pouco promissor. Mas mais que puro poder de síntese, trata-se de recurso de incalculável apelo emocional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os quatro versos são esses:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E de repente fogo! alguém gritou&lt;br /&gt;O velho mercado ardeu&lt;br /&gt;Madureira chorou ... chorou&lt;br /&gt;E a alma da gente doeu ”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio da segunda parte do samba, os compositores atingiram a parte essencial do enredo: a retratação da tragédia do incêndio que destruiu o mercadão. Os compositores conseguiram exprimir todo o impacto da tragédia em quatro versos de enorme objetividade e impacto emocional. No primeiro verso, a surpresa ante ao inesperado (de repente), a reduzida importância das causas em proporção ao alcance das conseqüências, a dramaticidade da percepção do instante da tragédia, a original mescla do discurso direto e indireto. No segundo, a felicíssima expressão “ardeu”, o discreto uso do adjetivo “velho”, que insere todo um implícito recado sobre o papel do tempo e da decadência física. No terceiro, usando o bordão de um conhecido samba, a idéia do mercadão como símbolo de uma coletividade, expressão de todo um bairro (quem chorou foi Madureira...). No quarto, enfim, um verso irrecusável, a máxima da síntese entre a objetividade e o apelo emocional, entre o discurso metafórico e a expressão concreta: a alma doeu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas na verdade a grande invenção deste samba de Curicica ainda está para ser assinalada, e se resume no emprego preciso de uma única palavra: é o segundo “chorou” no terceiro verso. Essas duas sílabas modificam completamente tudo o que se pode esperar de um samba-enredo. Trata-se de uma enorme contribuição, no sentido de como o samba-enredo pode recuperar um valor expressivo, de como pode ser possível materializar um sentimento. A conclusão dos compositores parece ser pela via negativa: repetir a palavra “chorou” significa que nada mais pode ser feito diante da tragédia, a não ser aceitar os fatos e sucumbir diante da tragicidade do destino. Nada mais resta a “Madureira” a não ser chorar, testemunhar e lamentar a perda de seu símbolo. O que fazer diante do terrível incêndio que destruiu o mercadão? Com isso, o samba acaba assumindo dimensões muito amplas, ao se debruçar sobre a finitude da vida e a impotência da condição humana para lidar com isso. Através da impossibilidade de expressar um sentimento, repetindo a palavra “chorou”, os compositores assumiram uma idéia de impotência e sua fragilidade, incorporando-as à própria estrutura do samba. Só então podemos calcular o impacto do quarto verso “e a alma da gente doeu”, como uma das maiores expressões de desnudamento da atual safra de samba-enredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais haveria a ser comentado sobre este samba, como, por exemplo, o belo início “É madrugada / o galo canta / lavrador se levanta / vai trabalhar”, que permite um contexto contemplativo ao inserir a importância da rotina no funcionamento diário do mercadão. Mas tudo se desvanece quando se compara aos antológicos quatro versos descritos. Com uma única palavra, os compositores de Curicica conseguiram retratar todo um sentimento de dor e de perda diante da tragicidade do destino. É mais que o suficiente para um samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda&lt;br /&gt;04/08/2003&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-1455526375339628984?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/1455526375339628984/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=1455526375339628984' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1455526375339628984'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/1455526375339628984'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/parque-curicica-2003.html' title='Parque Curicica 2003'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-5091235065636308175</id><published>2009-02-16T11:54:00.001-03:00</published><updated>2009-02-16T11:54:59.668-03:00</updated><title type='text'>sobre o Carnaval de 2003</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Carnaval 2003&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Carnaval atual está chegando a uma espécie de encruzilhada. O Carnaval de 2003 foi um dos mais fracos dos últimos tempos, quiçá da história do Carnaval. Os sintomas são claros: as escolas parecem repetitivas, não animam nem os desfilantes nem os espectadores, tudo parece um pastiche de si mesmo. As causas e as possíveis soluções é que parecem nebulosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De concreto, parece o seguinte: as escolas de samba tornaram-se um espetáculo. Ou seja, são apresentações feitas para o deleite visual, para serem assistidas. A reação ideal do espectador é permanecer inerte, possivelmente boquiaberto com a “beleza” e a “graça” das fantasias, dos carros alegóricos e de itens como a comissão de frente, o mestre sala e a porta bandeira, etc. Outro ponto fundamental que modificou o Carnaval são os critérios de julgamento. O desfile técnico passa a ser o necessariamente frio, correto, ou meramente descritivo. A influência dos campeonatos da Imperatriz na década de 90 foi decisiva para os atuais rumos do Carnaval. Mesmo que nos dois últimos anos a escola tenha se esforçado ao máximo para NÃO ganhar o Carnaval, as demais escolas tentam assumir o posto vago deixado pela Imperatriz, para, pelo menos, retornar no sábado das campeãs. As escolas intermediárias, que poderiam buscar um carnaval mais inovador, ou tentam alcançar o “grupo das notáveis”, ou tentam se manter, aos trancos e barrancos, nessa posição, exatamente copiando o “estilo nobre” do grupo das notáveis. Por fim, há três ou quatro escolas que se esforçam para permanecer no grupo. Em suma, não existe possibilidade para o risco no Grupo Especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estímulo à passividade do espectador, a predominância do tom descritivo escolhido pelos carnavalescos, e a imposição de um falso “tecnicismo” nos critérios de julgamento por parte da LIESA formam um tripé que levou o carnaval atual a uma encruzilhada. Talvez até uma crise, mas se o for, uma crise administrada. O Carnaval cada vez mais gera lucros, por isso, pela supremacia do econômico, passa-se uma idéia de que tudo vai bem. Mas quem acompanha o Carnaval cada vez mais se queixa das apresentações do Grupo Especial, cada vez mais confessa uma sensação de cansaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A crítica em 2002 foi a do patrocínio. Mesmo com enredos que não tratavam explicitamente de cidades ou de marcas (com a nítida exceção da Grande Rio), os enredos não se tornaram mais criativos, os sambas não se tornaram de melhor qualidade, a inércia do espectador permaneceu. Ou seja, a explicação para o marasmo é outra, de fonte bem mais complexa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-5091235065636308175?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/5091235065636308175/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=5091235065636308175' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5091235065636308175'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/5091235065636308175'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/sobre-o-carnaval-de-2003.html' title='sobre o Carnaval de 2003'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-7647366234343628012</id><published>2009-02-16T11:53:00.000-03:00</published><updated>2009-02-16T11:54:11.294-03:00</updated><title type='text'>Unidos de Lucas 1987</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Unidos de Lucas 1987&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o Tuiuti escolhe o samba para o enredo em homenagem a Vinicius de Moraes, sigamos o conselho do poetinha: “Recordar é viver”. A Unidos de Lucas ficou a um degrau de subir para o grupo principal apresentando em 1987 um enredo sobre o compositor. O samba de Lucas, escondido na última faixa do lado B do LP dos sambas-de-enredo de 1987, que incluía algumas escolas do especial, como Salgueiro, Ilha e Caprichosos, é uma pérola que deve ser mais conhecida. Sua leitura do enredo foi a de uma homenagem extremamente respeitosa, quase todo em tom menor, completamente absorto por um sentimento de saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O início do samba ilustra, à perfeição, a estratégia dos compositores. O primeiro verso é um capítulo à parte, de belíssima melodia em tom menor, quase o transformando em um canto de lamento. Basta compará-lo ao primeiro verso do samba da Portela de 1969 (As Treze Naus), semelhante nas pausas e na letra (“Apesar de tantos séculos passados”). No “apesar” o samba da Portela vai ligeiramente subindo, seguindo os padrões tradicionais de melodia do samba-enredo. No de Lucas, o “através” é totalmente dominado por um tom menor, num murmúrio grave, completamente atípico, quase fantasmagórico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o deslumbrante da saudade – e da homenagem – é a possibilidade de reviver, de resgatar os momentos passados. Lentamente tentando se desvencilhar de seu lado de lamúria fúnebre, a segunda parte, após o segundo refrão, se concentra no retrato apaixonado e íntimo do poeta como observador do cotidiano boêmio do Rio de Janeiro. Ao citar seus quatro parceiros mais famosos, num esforço enumerativo que nunca perde o vigor melódico, o samba atinge suas notas mais altas. Em seguida, completa com dois versos de enorme poder de síntese, poesia e beleza: “O poetinha fez da vida / uma canção de amor sem fim”. Se o amor não é imortal, posto que é chama, como afirmou o poeta num de seus sonetos mais famosos (o Soneto da Fidelidade), os compositores ironicamente desejam contestar o mestre. Sua vida foi (é) “uma canção de amor sem fim”, sugerindo a perpetuidade de suas obras e de seu sentimento de vida mesmo após sua morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terceiro refrão desponta então como natural continuidade dos versos anteriores, sintetizando em letra e melodia e essência do enredo, o papel da saudade, da memória, e da “vida após a morte”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não se pára por aí, e cada vez mais se percebe a extrema sensibilidade dos compositores. Ainda resta um discreto epílogo, comentário ambíguo, misto de uma profunda dor e resignação com um sentimento de esperança: “E entretanto é preciso cantar”. O samba claramente se apresenta como um canto de lamento (“entretanto”), que nos brinda com um sutil comentário sobre o papel da arte, da canção e – por que não? – do Carnaval no cotidiano de um povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda&lt;br /&gt;17/09/2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Unidos de Lucas 1987&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através de suas obras geniais&lt;br /&gt;Seu nome foi consagrado na galeria dos imortais&lt;br /&gt;É carnaval, é alegria&lt;br /&gt;Lucas faz com euforia&lt;br /&gt;Um tributo a Vinicius de Moraes&lt;br /&gt;Oh! Menestrel&lt;br /&gt;Diplomata, jornalista, escritor&lt;br /&gt;Compositor de rara inspiração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Peças teatrais, temas colossais &lt;br /&gt;Como Orfeu da Conceição]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça&lt;br /&gt;Quanta imaginação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[A beleza, a poesia&lt;br /&gt;Cantada em forma de canção]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sensível para o clássico e o popular&lt;br /&gt;O piano, o bar, a esquina&lt;br /&gt;E o papo com as meninas a beira-mar&lt;br /&gt;E com Toquinho, Carlos Lira&lt;br /&gt;Baden Powell e Tom Jobim&lt;br /&gt;O poetinha fez da vida&lt;br /&gt;Uma canção de amor sem fim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Oh mestre !&lt;br /&gt;Como recordar é viver&lt;br /&gt;E por falar em saudade&lt;br /&gt;Onde andará você]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E entretanto é preciso cantar&lt;br /&gt;Para alegrar a cidade &lt;br /&gt;Nesta festa popular&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-7647366234343628012?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/7647366234343628012/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=7647366234343628012' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/7647366234343628012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/7647366234343628012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/unidos-de-lucas-1987.html' title='Unidos de Lucas 1987'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-35079208086170534</id><published>2009-02-16T11:51:00.001-03:00</published><updated>2009-02-16T11:51:39.422-03:00</updated><title type='text'>Grupo B 2004 - esboço</title><content type='html'>Grupo B&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O simples fato de o CD do Grupo B 2004 existir já é um feito a ser comemorado, ainda mais a partir da lacuna de 2003, em que o CD não foi lançado. A “festa” só não é completa, porque duas escolas estão fora do CD: Renascer e Villa Rica (sendo que não me foi possível ter acesso ao samba desta última)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vizinha Faladeira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se os sambas de invenção pós anos 90 propunham uma ampliação das convenções rítmicas dos sambas dos anos 80, sempre persistiu uma certa saudade, uma nostalgia de um período de notável popularização de tais convenções. Neste sentido, este samba da Vizinha Faladeira para o Carnaval de 2004 talvez seja uma das mais notáveis tentativas de resgate a uma visão de samba-enredo. Para tanto, o fator primordial é o tom narrativo do enredo, que descreve a conhecida e popular história da bela adormecida – entrando em diálogo com o solitário título da escola no longínquo carnaval de 1934, sobre a Branca de Neve e os sete anões. Esse diálogo do enredo (que só foi possível devido ao mote das “reedições”, que acabou encontrando sua ressonância particular também no Grupo B) portanto ganhou uma analogia com o samba-enredo, numa analogia entre o musical e o visual que se encontra seu encaixe mais adequado numa estrutura de Grupo B, por excelência, distante da “espetacularização” dos desfiles do Grupo Especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se é o tom popular e especialmente o aspecto narrativo do enredo que permitiram aos compositores construir essa ponte com uma visão de anos oitenta (vejam o formato típico do refrão do meio), o samba é maior que simples revisitação nostálgica. Na sua simplicidade e objetividade de estrutura, surge uma leitura do conto infantil com inegável brilho e destreza. A sabedoria dos autores foi enxergar o conto como uma luta entre o bem o mal, preenchendo toda a narrativa com um tom místico ameno mas bastante atento aos detalhes, sem nenhum termo supérfluo (note a predominância dos substantivos em relação aos adjetivos). Versos com enorme poder de síntese e poesia (“até que o príncipe guerreiro / na floresta fez da lenda uma missão”, “do beijo nobre renasce a vida”) dão o tom de bom gosto e discreto refinamento que dominam todo o samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por fim o samba se revela com uma luz especial no admirável refrão final. Após a narrativa épica da bruxa versus a fada, ou do príncipe versus o dragão, ou, em última instância, do bem versus o mal, as trevas, o sono sucumbem ante a luz, o amor. O refrão final, num recurso típico de uma ópera, evoca essa glorificação do bem ante o mal, com um símbolo de paz. E como, em termos narrativos, isso poderia ser expresso? Ora, através do nascimento de uma criança, dando continuidade ao reino, à paz, à vida. É somente isto o que está em jogo nesta fábula moral.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-35079208086170534?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/35079208086170534/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=35079208086170534' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/35079208086170534'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/35079208086170534'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/grupo-b-2004-esboco.html' title='Grupo B 2004 - esboço'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-9144673536651479929</id><published>2009-02-16T11:49:00.000-03:00</published><updated>2009-02-16T11:50:58.122-03:00</updated><title type='text'>Coluna - num 3</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Coluna 3 – os sambas do Grupo de Acesso A&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a safra do Grupo Especial foi uma das menos felizes dos últimos tempos, o mesmo não pode ser dito em relação ao Grupo de Acesso A. Ao contrário, em 2004 veremos uma das safras mais consistentes do Grupo. Ainda, teremos o privilégio de acompanhar três sambas bem acima da média, inclusive do Grupo Especial: União de Jacarepaguá, Vila Isabel e Tuiuti. O samba de Jacarepaguá, que será visto de forma mais detalhada a seguir, é o grande samba de 2004, entre todos os grupos, uma verdadeira obra-prima, comprovando que o gênero samba-enredo está longe de parecer esgotado. O samba simplesmente consegue praticamente o impossível: aliar uma letra longa e descritiva com uma melodia repleta de meandros e trechos de enorme inventividade, ou ainda as exigências de um samba-enredo atual com um de linhagem clássica. Já o samba da Vila Isabel é absolutamente memorável por outro aspecto, estando quase na contramão do samba de Jacarepaguá. Aqui, o que está em jogo é, a partir de uma visão de samba-enredo que tem como primazia o competitivo, conseguir extrair melodia e poesia. A perfeição com que o faz nos comprova que é preciso ver além, que não se pode simplesmente rotular o samba competitivo como um samba menor. Já o samba da Tuiuti explora os limites entre o samba-enredo e os demais tipos de samba, trazendo para o formato do samba-enredo um jeito de “samba de raiz” ou especialmente de “samba-exaltação”, até explodir num refrão final absolutamente desconcertante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além destes três sambas memoráveis, outros dois estão acima da média, comprovando a boa safra do Grupo A: Santa Cruz e União da Ilha. A Santa Cruz repete a parceria de Doutor e Fernando de Lima em mais um samba típico da parceria, com contornos melódicos praticamente idênticos ao samba de 2003, mas que ao mesmo tempo comprova a eficiência e a coerência do “samba de laboratório” do grupo. Já o samba da União da Ilha é outro e deve ser visto do mesmo modo que o da São Clemente: ainda que não seja um “samba de invenção”, é um samba absolutamente necessário por resgatar uma identidade musical e carnavalesca própria da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda, três sambas não deixam a dever a outros do Especial: Rocinha, Alegria e Leão. Consistente, o discreto samba da Rocinha tem passagens de letra e melodia de suave beleza, e merece ser observado mais atentamente, porque foge tanto do estilo oba-oba quanto de um estilo abertamente mais refinado. O samba da Alegria é o outro lado da moeda: aberto, alegre, delirante, carnavalesco, é um samba que não tem o menor pudor em romper sua própria estrutura para promover um mergulho desigual e fascinante na obra de Dorival Caymmi. O samba do Leão tem seus méritos, seja num longo refrão final ou na sinuosa melodia da primeira parte, e tem os seus momentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, os outros quatro. A Estácio mais uma vez opta por um samba de embalo irregular, apesar de ter um ou outro momento. A Cubango se esforça ao máximo para evitar o samba-trash com um enredo sobre os shopping centers, mas cujo resultado dificilmente poderia ser positivo. A Inocentes aposta na marchinha fácil e no samba descartável. E a Lins desperdiça a homenagem à Mangueira para compor um samba absolutamente burocrático e descritivo, que ignora que uma visão de poesia deve se compor de uma integração entre letra e poesia, e nunca da supremacia de uma sobre a outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda.&lt;br /&gt;06/02/2004.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jacarepaguá&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o samba-enredo contemporâneo se debruça sobre um dilema. Na questão da letra, de um lado, uma necessidade de ser descritivo a ponto de abordar em sua exposição a integralidade do enredo e a disposição (em alas e alegorias) da escola na Avenida; de outro, de ser sintético e com expressões fáceis para tornar o samba de mais rápida assimilação. Na melodia, por um lado ser um samba de apelo cada vez mais popular, por outro, ser uma samba com mais nuances melódicas e repleto de meias-pausas e variações rítmicas que o samba da década de 80, que seguia muito mais à risca suas convenções particulares (tanto rítmicas quanto melódicas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este samba da União de Jacarepaguá é uma verdadeira jóia por vários aspectos, entre eles o de ser uma reflexão profunda sobre esse hiato. Seu complexo projeto é na verdade o de reunir as duas tendências, resgatando um samba-enredo de origem mais clássica (até mesmo o samba dos anos 60), mas acrescentando-lhe uma roupagem contemporânea, seja no sentido de presentificar suas formas seja como meio de compatibilização às necessidades atuais do desfile e da disputa de samba-enredo dentro da escola. Temos então um samba de 24 longos versos, além dos oito que compõem os refrões, que descreve perfeitamente o enredo de forma clara mesmo para quem está sendo apresentado a este pela primeira vez, integralmente tomado por expressões simples e objetivas, com dois refrões fortes (especialmente o do meio) típicos dos sambas atuais. Por isso, na verdade é um samba popular, que só não se revela ainda mais devido à sua extensão, mas que não busca as quebras rítmicas e melódicas de uma vertente do samba-enredo atual (Gusttavo, Lequinho, Wilsinho Paz, etc.). Ou seja, não é propriamente um samba de invenção, no sentido de buscar novas formas de expressão para o gênero, mas é um samba de continuidade, de diálogo com uma cadência rítmica mais típica dos anos 80 e de uma estrutura de letra dos anos 60. Fato este que está longe de desmerecê-lo, pois sua vocação é exatamente esta: o de mostrar que não está necessariamente dissociado do apelo popular um bom gosto melódico e um requinte de composição. Por outro lado, quando dizemos “popular”, pensamos na comunidade, enfim nas pessoas que tem uma certa intimidade com o gênero, e não nos “turistas” que eventualmente compõem o público da Sapucaí ou que desfilam nas escolas. Ou seja, popular é o público que freqüenta os desfiles do Grupo de Acesso, tipicamente diferente do que atualmente assiste ao Grupo Especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se não é um “samba de invenção” e se demonstra uma vocação mais popular, isto não implica em absoluto que o samba seja de pouca criatividade. Ao contrário, este samba de Jacarepaguá se revela como um verdadeiro assombro em termos de sua força arquitetônica, ao construir em cada verso e cada nota, sem nenhuma necessidade de precipitação que o leve para um desfecho sorrateiro, uma leitura do enredo de supremo bom-gosto e requinte: não há uma única palavra ou acorde que não esteja perfeitamente encaixado no samba ou que destoe de um conjunto que suplanta sua simples expressão individual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ápice dessa tendência está na extraordinária segunda parte do samba, que – sem nenhum exagero – passa a ser peça obrigatória em qualquer antologia de samba-enredo. Chega-se quase ao limite das potencialidades de um samba atual: está para os nossos tempos assim como o que a “Aquarela Brasileira” representou para os seus. Nos primeiros cinco versos apresenta-se a diversidade das belezas naturais do Rio de Janeiro, com destaque para a singeleza das variações melódicas dos dois primeiros versos (observe, por exemplo, como, no primeiro verso, há uma gradação do agudo ao grave de extrema maestria e habilidade de composição, e como no segundo, se foge, tanto em termos rítmicos quanto melódicos, da mera repetição do verso anterior). Em seguida, o samba passa a ser narrado em primeira pessoa, com o uso reiterativo de “sou” ou “eu sou”, mas nunca como mero espelho de pobreza vocabular, e sim como recurso de expressão, sendo que a melodia nitidamente aponta para a consciência da repetição como efeito expressivo. Os três primeiros versos, de rara beleza melódica, poderiam apontar para um crescendo muito abrupto, tornando, nesta progressão, o samba agudo demais em seus versos finais (vejam por exemplo o caso do samba da Mangueira de 1992, sobre Tom Jobim, em que o crescendo é linear).  Mas os autores no verso seguinte elaboram um recurso de extrema sofisticação, trazendo de novo o samba para o mais grave, para em seguida, dois versos adiante, novamente retornar aos acordes mais agudos, revelando a enorme variação melódica da obra e a estratégia dos compositores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apostando num tipo de composição que caminha na contramão do “trash enlatado” ou do fast food que contamina os desfiles atuais, revelando a destacada ousadia e coragem tanto do Presidente da escola quanto de sua ala dos compositores, a União de Jacarepaguá, em seu terceiro ano consecutivo no Grupo A, aposta num mesmo estilo refinado de samba-enredo, em consonância com os dois anos anteriores, consolidando uma identidade musical para a agremiação. Este samba, da mesma parceria do também belo samba de 2002 (sobre o sonho de voar), potencializa vários dos avanços do verdadeiro tour de force estilístico que era o samba de 2003, de outros autores, confirmando um trajeto de continuidade e de influência mútua que revela que, ao que tudo indica, os deuses da inspiração sopram para as bandas de Jacarepaguá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda&lt;br /&gt;23/01/2004.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Vila Isabel&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A disputa para a escolha do samba-enredo na Vila Isabel colocou frente a frente um dilema que atinge não só a escola, mas o desfile das escolas de samba em geral. De um lado, o samba de Jorge Tropical, que tentava o bicampeonato; de outro, o samba de Leonel, André Diniz e parceiros. Ou seja, de um lado, um samba de vertente clássica, com uma melodia original mais próxima dos sambas antigos da escola; de outro, um samba mais voltado para o lado competitivo e para as necessidades do desfile de hoje. Dado o decepcionante resultado do ano passado, em que a escola não conseguiu retornar ao Grupo Especial com o samba de Jorge Tropical, seria natural que a outra vertente ganhasse força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fruto de uma parceria que já fez o seu nome no samba-enredo contemporâneo, o samba da Vila Isabel deve ser analisado junto com o samba do Salgueiro, composto pela mesma parceria. Mas enquanto tudo no samba do Salgueiro aponta para uma impossibilidade, ou para uma resignação, neste samba da Vila Isabel, tudo se transforma, todo o samba é envolto por uma necessidade do desejo. Ainda, o que está em jogo é, acima de tudo, um samba que prima pelo competitivo. Mas o que este samba comprova – e esta é sua grande lição – é que não é isto o que o torna menor, é poder aliar uma visão competitiva a um lado de poesia e melodia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O enredo, sobre a cidade de Paraty, a princípio não parece nada inspirador. Mas ao invés da descrição meramente didática, os autores incorporaram na estrutura do samba uma idéia de caminho e percurso com diversas analogias à sua própria posição como compositores. Neste caminho em direção às riquezas e às tradições de Paraty, não resta uma saudade, ou uma revisitação nostálgica. O que se busca é uma analogia com um olhar de hoje, como se todo o frescor do caminho se mantivesse hoje da mesma forma que antes. O desafio em relação à proposta da parceria em termos de samba-enredo fica claro no seguinte verso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que preserva tradições&lt;br /&gt;E se alinha às transformações”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passado e presente se fundem, numa idéia circular, já traduzida na cabeça do samba (‘Chegou minha Vila a girar”), e todo o samba se inspira de uma forma comovente numa idéia de liberdade e esperança (na felicíssima expressão “veio azul e branco”). E é claro, o que torna mais comovente é que essa viagem ao passado e às riquezas de Paraty se revela um espelho da própria história da Vila Isabel. E ao invés de se renderem ao fácil discurso de nostalgia, a lição dos compositores é que “meu passado é hoje”, e que esse legado é mais que presente, mas sem nunca se esquecer dos desafios e das transformações próprios da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda.&lt;br /&gt;15/02/2004.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tuiuti&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é preciso muito para tornar um samba-enredo marcante: é preciso antes de tudo um olhar sobre o enredo que se traduza através de uma estrutura que articule letra e melodia. O belo samba da Tuiuti é exatamente isso: é um samba baseado numa estrutura sem grandes variações melódicas, tornando-o até certo ponto repetitivo, especialmente na transição da primeira parte para o refrão do meio. Mas seu aspecto de invenção é exatamente esse: através de um tom menor ambíguo que perpassa três quartos do samba, consegue romper o formato tradicional dos sambas-enredo atuais, fugindo das convenções para buscar sua própria expressão particular. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E essa expressão busca sua originalidade através de um implícito questionamento do que é específico do samba-enredo, tornando-se mais próximo – por uma noção de ritmo, de contornos melódicos, e de letra – de um samba-exaltação. Em termos de letra, este samba da Tuiuti ainda reluta contra o samba-enredo descritivo, para – como seu primeiro verso apresenta de forma muito clara – promover um “mergulho” poético e lúdico no imaginário do poetinha, ao invés de simplesmente listar suas principais obras. Vejam como a primeira parte foge do meramente descritivo para incorporar um sentido poético:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Venha mergulhar&lt;br /&gt;Num lindo mar de fantasias&lt;br /&gt;Meu canto está no ar&lt;br /&gt;Com um leve toque de magia&lt;br /&gt;Vejo no amanhecer&lt;br /&gt;Versos e canções de amor&lt;br /&gt;E uma doce aquarela&lt;br /&gt;De um paraíso multicor”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo ainda está para ser desvelado de forma desconcertante e inesperada, no memorável refrão final, que explode como um grito de desabafo. Ao contrário de todo o tom monocórdico e sombrio do samba, o refrão final atinge as notas mais agudas, integrando o ato de desfilar com a proposta do enredo. Com isso, a homenagem se expressa em toda a sua atualidade, como lição de vida (um tríptico: ato de lembrar – ato de desfilar – ato de viver). O longo refrão final quebra todos os paradigmas da fórmula do “samba-empolgação”, o que só serve para confirmar a inutilidade das fórmulas: é sem sombras de dúvida o refrão final mais marcante do ano de 2004.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Burilado com pequenas mas significativas correções (realizadas por um dos compositores que fora derrotado na final, um dos mais raros atos de generosidade em termos de uma disputa de samba-enredo), este samba da Tuiuti, cujo desempenho deve ser melhor avaliado após o desfile da escola na Avenida, é uma das grandes provas que o gênero do samba-enredo pode se renovar caso haja a coragem de também olhar para o antigo e para suas raízes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda.&lt;br /&gt;15/02/2004.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Santa Cruz&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O samba-enredo contemporâneo possui várias vertentes. É preciso olhar com atenção cada uma delas, analisando o viés de suas limitações, mas também respeitando suas particularidades, refletindo até que ponto esse viés espelha um olhar sobre o gênero e sobre o próprio desfile das escolas de samba. Este é o desafio quando se ouve mais um samba de Fernando de Lima, o típico “samba de laboratório”. Este samba da Santa Cruz é praticamente idêntico em termos musicais e de estrutura ao samba da Santa Cruz de 2001 e de 2002, todos da mesma parceria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Refrão Final 2003:&lt;br /&gt;“É Santa Cruz pode aplaudir, alto astral&lt;br /&gt;O nosso show hoje é aqui, mundial&lt;br /&gt;Você faz esta festa, chegou a hora é esta,&lt;br /&gt;Carnaval!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Refrão Final 2004:&lt;br /&gt;‘Pintei de amor meu coração&lt;br /&gt;Deixei entrar a sedução&lt;br /&gt;Brindo esta terra que a história traduz&lt;br /&gt;Santa Cruz!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Compare também com a parte de 2003)&lt;br /&gt;“Estrelas de Luz&lt;br /&gt;O artista traduz emoção”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como típico samba de Fernando de Lima, não há espaço para a invenção, para o esgar, ou para a mera intuição: trata-se de buscar os caminhos de um samba essencialmente competitivo, um “samba de laboratório”. Mas ainda assim, e esta é a sutileza do grupo de compositores, toda a rigidez de sua estrutura reflete apenas sua forma particular de fazer poesia. À sua maneira, o samba busca um diálogo com um processo poético, um inventário preciso de paixão e fantasia. De novo, a escolha das palavras se torna marcante, como nos versos “jóia que o amor poliu” ou “mergulhei meus sonhos em tua baía”. Mas talvez os versos que melhor definam o estilo dos compositores sejam “Abri as comportas das recordações / E desaguei as emoções”, em que toda a rigidez do concreto e da pesada estrutura física da represa se mistura a uma idéia intangível de memória, recordação, fantasia e emoção. É o que está em jogo por trás de todo o concreto da estrutura de “samba de laboratório” dos compositores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda.&lt;br /&gt;16/02/2004. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alegria&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se nem tudo que reluz é ouro, nem todo samba-enredo prima pelos contornos técnicos, pela perfeição do acabamento. Ao contrário, o típico samba-enredo, especialmente nos anos 80, era o que mantinha uma comunicação com o público, o que refletia de forma intuitiva um certo inconsciente coletivo, uma tradição coletiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O samba da Alegria da Zona Sul reflete isso, todo um desejo de um Carnaval como ato de despojamento e de viver. Nessa ingenuidade reside sua força intuitiva. Os autores viram no enredo em homenagem a Dorival Caymmi uma oportunidade de promover um mergulho nas tradições do Rio de Janeiro e da Bahia. Delirante, visionário, o enredo coloca as duas heranças culturais num verdadeiro caldeirão de influências mútuas, sem se preocupar em localizar as diferenças. Tudo então passa a fazer parte de um grande Brasil, de um autêntico Carnaval, e é nessa intuitiva generosidade que o samba ganha sua força particular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira parte traduz todo o espírito do samba de forma bastante intuitiva e inspirada. Os quatro primeiros versos sinalizam o teor místico do samba:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O céu da Bahia está em festa&lt;br /&gt;Dança ioiô, canta sinhá&lt;br /&gt;Hoje os atabaques anunciam&lt;br /&gt;Caymmi vem nos braços de Iemanjá”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheio de um ingênuo e simples misticismo que tem inúmeros paralelos com a própria obra do compositor, a abertura do samba promove um encontro entre céu, terra e mar para a vinda de Caymmi. O samba ainda faz um verso de incrível intimidade e sutileza (“dança ioiô, canta sinhá”), conseguindo, de forma absolutamente simples, retratar todo um espírito de festa e de introdução ao espírito da obra do compositor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos outros quatro versos, o samba pontua a questão do contato cultural, da ponte entre a Bahia e o Rio, ponto-chave do samba, de forma absolutamente clara e sucinta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No Ita naveguei&lt;br /&gt;e vim no Rio morar&lt;br /&gt;Bateu forte o coração&lt;br /&gt;Copacabana é minha paixão”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo se desvela na segunda parte, em que, com grande energia, o samba desconstrói toda sua possibilidade de unidade de estrutura para promover um mergulho desigual e fascinante nesse universo. Rompendo qualquer possibilidade de uma idéia de percurso, na segunda parte, é como se o compositor já estivesse completamente integrado a conviver entre os dois universos. O samba então submerge, de forma delirante, nessa confluência de culturas e acontecimentos. Como o próprio samba diz, um verso sintetiza, na melodia e na letra, sua força intuitiva: “Caymmi é alegria” (ou seja, “alegria” tanto como enredo da escola quanto como explosão de um desejo). A Alegria então dá sua contribuição no sentido de resgatar um samba-enredo de empolgação que preserva sua força intuitiva e seu desejo por um Carnaval de mais vibração que de técnica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda.&lt;br /&gt;15/02/2004.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-9144673536651479929?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/9144673536651479929/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=9144673536651479929' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/9144673536651479929'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/9144673536651479929'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/coluna-num-3.html' title='Coluna - num 3'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-714501373168583992</id><published>2009-02-16T11:47:00.005-03:00</published><updated>2009-02-16T12:26:36.860-03:00</updated><title type='text'>Coluna - num 2</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Coluna número dois – a safra do Grupo Especial de 2004: os sambas não-reeditados&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme “prometido” na coluna anterior, nesta iremos nos debruçar mais a fundo sobre os sambas das dez escolas que optaram por enredos originais, isto é, as não-reedições. Seguiremos a ordem do CD.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1) Beija-Flor&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A Beija-Flor comprova sua importância em termos musicais no Carnaval atual com o melhor samba entre as não-reedições. E isto porque havia ainda na equilibrada disputa na Beija-Flor pelo menos mais dois sambas de mesmo (senão de melhor) nível que o escolhido ( o de Aloísio Villar e parceiros, e o de Wilsinho Paz e parceiros). No impasse interno que se seguiu após a suposta preferência de Laíla pelo samba de Serginho Sumaré, ninguém menos que Neguinho da Beija-Flor acabou sendo fundamental para a virada na reta final, e a vitória do samba de Cláudio Russo e parceiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde a entrada da Comissão de Carnaval, e o campeonato no desfile de 1998, a Beija-Flor promoveu uma pequena revolução no Carnaval Carioca, tanto em termos visuais quanto musicais. Com isso, a Beija-Flor alcança uma identidade musical, baseada em sambas de andamento mais cadenciado e melodias com contornos mais trabalhados. Neste samba sobre a Amazônia, não é diferente, e a única passagem que soa abaixo das demais é o refrão final, com uma mensagem educativa que beira o didático (“Se Deus me deu, vou preservar / Meus filhos vão se orgulhar”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande achado deste samba é sua distribuição nos versos a partir de sílabas tônicas com diferentes aberturas vocais. Todos os versos são entrecortados por sílabas fortes que são ora abertas (&lt;á&gt;, &lt;é&gt;, &lt;ó&gt;) ora fechadas (&lt;ã&gt;, &lt;ê&gt;, &lt;ô&gt;, &lt;í&gt;, &lt;ú&gt;), provocando uma alternância extremamente favorável à melodia. O ponto típico desta estratégia está no refrão do meio. Abaixo podemos ver a estratégia de rima dos compositores, equilibrada com sílabas tônicas de outras aberturas (usa-se do &lt;á&gt; até o &lt;ú&gt;). A metrificação também é perfeita, sendo na verdade um verso de cinco seguido de um de doze, duas vezes (assinalado por / )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eh! &lt;ê&gt; Manôa &lt;ô&gt; /&lt;br /&gt;Minha canoa &lt;ô&gt; vai cruzar &lt;á&gt; o rio-mar &lt;á&gt; /&lt;br /&gt;Verde &lt;ê&gt; paraíso &lt;í&gt; / é onde Iara &lt;á&gt; me seduz &lt;ú&gt;&lt;br /&gt;com seu cantar  &lt;á&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta observação pode ser feita para quase todo o samba, como por exemplo, o final da primeira parte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brilhou &lt;ô&gt; o Eldorado, &lt;á&gt;&lt;br /&gt;No co  &lt;ô&gt;  ração da mata  &lt;á&gt;  as guerreiras  &lt;ê&gt;&lt;br /&gt;Bele  &lt;ê&gt; zas naturais, &lt;á&gt;  rique  &lt;ê&gt;  zas minerais  &lt;á&gt;&lt;br /&gt;O rei  &lt;ê&gt;  no de Tupã  &lt;ã&gt;  ergue a bandeira  &lt;ê&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros achados em termos de letra merecem ser destacados, como “A lágrima que o trovão derramou”, ou especialmente em “água que lava minh´alma”, em que a melodia atinge seus acordes mais líricos, apenas para no verso seguinte retornar a estrutura com vogais mais fechadas (“ao matar a sede &lt;ê&gt; da população &lt;ã&gt;”), como recurso típico deste samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É essa articulação entre letra e melodia que torna este samba da Beija-Flor o mais bem sucedido dos sambas não-reeditados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2) Mangueira&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Equilíbrio e intimismo: Cadu e sua “estética do artesanato”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não vivo no passado; é o passado que vive em mim”&lt;br /&gt;Paulinho da Viola&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após três anos em que foram derrotados na final, Cadu e seus parceiros finalmente venceram a disputa na Mangueira com relativa facilidade (a decisão na final foi quase unânime) em sua quarta final consecutiva. Este samba é uma espécie de síntese da visão dos compositores sobre o gênero, e ao mesmo tempo consolida sua progressiva evolução, sendo o samba mais trabalhado da parceria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Cadu, não se trata de fazer um samba de invenção: sua proposta é trabalhar de forma incansável e minuciosa dentro dos estreitos limites do gênero. É um samba mais de transpiração que de inspiração, o que de forma alguma significa um desmérito: é nítida a preocupação dos autores em buscar a palavra mais exata, o acorde mais perfeito, o tom exato. Dessa forma, a grande chave que sintetiza a impressão causada pelo samba é o equilíbrio. É essa obsessão pelo acabamento que cristaliza a “estética do artesanato” dos compositores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quem pensa, a partir dessas linhas, que se trata de mero acabamento mecanicista está muito enganado. Por trás de sua aparente estrutura que beira o convencional, desvela-se como nítida expressão pessoal, e daí resume a incrível sutileza desse samba. (E daí lembramos os recursos de uma arte que luta intensamente para esconder seus supostos vestígios de expressão pessoal, mas que acaba paradoxalmente por revelar-se - ou seja, a estética classicista, desde um filme de Howard Hawks até um romance de Tolstoi...) .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua expressão autoral está na leitura do enredo pelos autores como uma inevitável expressão de saudade e melancolia. Nesse enfoque, tudo se encaixou plenamente ao estilo dos autores de preferirem os meios-tons e a chave em tom menor. O início do samba, numa espécie de “flashback”, já evidencia a estratégia dos autores: é a partir da herança partida do hoje que se olham as maravilhas do ontem. Nesse passeio íntimo pelas riquezas de Minas, seu olhar pelo passado nunca é meramente saudosista e antigo (apesar de claramente tender a isto), mas se conjuga sutilmente com a necessidade do presente. Vejamos a estratégia dos autores em seu refrão do meio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por belos recantos, andei&lt;br /&gt;Das suas águas provei&lt;br /&gt;De mansinho, eu peço passagem&lt;br /&gt;A Mangueira vai seguir viagem”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois primeiros versos tratam das belezas do passado; o terceiro, reforça o tom de intimidade e sutileza que já existia nos dois primeiros versos. Mas o quarto é o mais elucidativo: mostra que mais que simples viagem ao passado, é um pequeno estudo sobre o papel do tempo. Seguindo a viagem pelos recantos, os autores mostram que a vida precisa continuar, que não se pode viver eternamente no passado, que o trem precisa seguir até o seu destino final. No fundo não deixa de ser triste, porque revela que é impossível permanecer lá para sempre, ou seja, não deixa de ser um olhar humilde sobre a fugacidade da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o samba se estrutura na idéia do percurso e na problematização da revisitação do passado. A primeira estrofe apresenta a questão de forma bastante sugestiva (“A estrada do sonho” / “Real desejo de poder e ambição”). Com “a estrada do sonho”, os autores resumem toda a idéia de percurso que caracteriza o samba, além da visão do passado como refúgio idílico impossível. Mas no verso seguinte, o “real desejo” traz de volta a importância da realidade (e a estrada é conhecida como “estrada real”...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, em duas partes o samba coroa a fusão de presente e passado e sua estrutura do percurso com uma idéia de destino. A primeira, mais descritiva, é em “eu chego ao Rio com certeza”. Mas a segunda é mais poética, uma das chaves de elucidação do discurso dos autores: “As trilhas bordadas em ouro / levaram tesouros a caminho do mar”. A ambigüidade dos versos revela a sutileza desse samba: por um lado, um recurso negativo, já que a chegada ao mar representa o escoamento das riquezas para fora do país, uma perda de identidade. Por outro, positivo, já que o percurso e a viagem acabaram sendo bem-sucedidos. O mar surge, então, com inevitável força, como elemento simbólico, valorizado pela melodia, que ganha contornos mais líricos. É em direção a esse mar, como síntese entre o exílio e o encontro, que segue todo o percurso do samba por um rastro de passado perdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3) Grande Rio&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bicampeões, o samba de Mingau e cia. para 2004 não possui o mesmo vigor melódico que o samba de 2003. A tentativa a princípio parece a mesma: apresentar à Grande Rio um samba com uma roupagem melódica mais requintada, repleto de meias-pausas e variações melódicas para o agudo que beneficiem o estilo de Wander Pires. Mas desta vez, o enredo dificultou, e o tom acabou beirando o didático e o convencional. É certo que pelo menos a Grande Rio não virá para a Avenida com um samba trash, cheio de tiradas ambíguas e tendendo para o apelativo, seja em termos de letra quanto em melodia, e nessa escolha se ressalte o perfil criado pelos compositores, que tentam criar um relativo bom gosto. Mas se isso pode parecer muito em termos do que estava em jogo (isto é, do que o samba poderia acabar sendo) acaba sendo muito pouco em termos do que realmente é. No duro no duro acaba sendo um samba sofrível, especialmente em termos de letra, e com diversos problemas de acabamento, cheio de versos incompletos ou com sílabas frouxas (“quero ter pra ver / o milagre da vida acontecer”, “faz meu sonho real”, “fique sabendo”, “meu bem, lições de amor”, ...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;4) Imperatriz&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o desastroso samba de 2003, a Imperatriz retorna ao seu estilo tradicional de samba: uma samba leve, de versos curtos, repleto de meias-pausas, com uma melodia fácil mas requintada, extremamente sintética em termos de leitura do enredo. Os compositores foram muito felizes em traduzir um enredo de leitura complexa de forma agradável e objetiva. Samba discreto, sem nenhum trecho com uma melodia de acordes mais agudos (nem mesmo nos refrões, e talvez especialmente neles...), revela seu refinamento e seu estilo cadenciado especialmente na segunda parte. Nela, os quatro primeiros versos introduzem de forma lírica a participação de Cabo Frio no enredo, resolvendo a dificuldade técnica da introdução de “Vespúcio” no samba. Em seguida, uma ligeira quebra, típica dos sambas do Guga, em “depois partiu com nosso pau-brasil”, para logo depois retornar ao estilo mais cadenciado próprio da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao final, um recurso quase atípico dos sambas atuais: uma espécie de epílogo, com quatro versos antes do refrão principal, que insere um clima de contemplação passiva e de deslumbramento extremamente sugestivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Equilibrado e lírico, este samba da Imperatriz acaba se destacando por sua discreta poesia e sua leitura fácil e sintética dos sempre complicados enredos de Rosa Magalhães.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;5) Mocidade&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Os sambas-cartilha de Santana e Ricardo Simpatia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois dos enredos sobre a paz universal e cia. e da façanha de realizar um dos enredos mais impensáveis da história do Carnaval – a doação de órgãos – a Mocidade resolve fazer uma campanha contra os acidentes de trânsito, chegando inclusive ao descalabro de usar a figura de Ayrton Senna para mostrar ao povo como a alta velocidade provoca vítimas. Em prol do politicamente correto e das campanhas de utilidade pública, a Mocidade com estes dois enredos está para o que foi a Beija-Flor no início dos anos setenta, com seus enredos sobre o Mobral e o Brasil do ano 2000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A síntese do discurso reacionário, burocrático e didático que busca a Mocidade está nos sambas de Santana e Ricardo Simpatia. Se em Villa Lobos, a dupla ainda consegue instantes de poesia, apesar de irregular, o novo discurso da escola parece ter se encaixado à perfeição no estilo dos compositores. Recheado de imperativos categóricos, permeado de acordes evangélicos que remetem a uma idéia de limite tênue entre vida e morte e de um sentido de missão/redenção, a dupla de compositores parece querer inaugurar uma nova linha –  melódica e estilística –  na safra de sambas-de-enredo atuais: o samba-cartilha. Torna-se assim pior que os referidos sambas da Beija-Flor, já que estes apenas descreviam as "glórias do Governo", enquanto os da dupla não apenas descrevem, mas sugerem que quem ouça passe a ter um certo tipo de padrão de comportamento. Se pensarmos que o Carnaval é por excelência a época da "inversão", da saudosa malandragem, da revisão dos padrões politicamente corretos, da critica aos costumes, o Carnaval da Mocidade pode ser considerado o "anti-Carnaval", e a verdade é que os sambas de Santana e Ricardo Simpatia são o hino perfeito para esse Carnaval possível: didáticos, burocráticos, reacionários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;7) Salgueiro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O samba do Salgueiro é – por incrível que pareça – o mais complexo samba da safra 2004, pois para ouvi-lo corretamente, é preciso estar bastante atento não só aos últimos desfiles da escola, mas conhecer a fundo a trajetória do grupo de seus compositores e de seus “arredores”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada verso e cada acorde deste samba estão envoltos em um sinal de perplexidade, ou melhor, em uma redoma de impossibilidade. Seus compositores são de um grupo dos mais talentosos do samba-enredo atual (e não é à toa que chegam ao tricampeonato  - aliás inédito - numa escola do porte de um Salgueiro). No entanto, aqui, não se trata de talento nato (lembramos de Gusttavo e cia. ), não se trata de inspiração. Ao contrário, trata-se de negar a qualquer custo qualquer vestígio de uma aptidão natural, qualquer rastro de espontaneidade. O que se busca é exatamente um samba de laboratório, o que se quer é a “fórmula do samba de embalo” perfeito para o desfile oba-oba do Salgueiro, o que se deseja é aperfeiçoar o processo logístico da apresentação na quadra e da eliminatória dentro do Salgueiro. Seu produto é a negação do samba-enredo nos termos em que dizia Monarco (“o samba não é do morro nem da cidade; samba é tudo o que vem do coração”) para a implementação do supra-sumo do samba competitivo, do samba de resultados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando analisamos a fundo este samba do Salgueiro – e este samba em particular mais que os dois anteriores –, o que só foi possível graças ao andamento lento da gravação do CD, percebemos que toda essa reação é quase uma atitude de criança que, acuada ao brigar com seus amigos de rua, acaba encontrando os estudos como único refúgio. Percebemos que todo o samba é um canto de lamento, que em todos os seus acordes ressoa um desejo profundo de que as coisas fossem diferentes, sendo uma das mais contundentes reflexões sobre o atual estágio dos desfiles das escolas de samba. E pensamos no fato de que os compositores vieram da Vila Isabel, escola de magníficos sambas que sucumbiu, entre muitas outras coisas, diante da recusa em apresentar um Carnaval de resultados; lembramos que o líder deste grupo de compositores (ainda que prefira não assinar o samba) é um enorme talento da “jovem guarda” que assinou sambas históricos da recente safra da Vila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é quando todas as intenções deste samba começam a se desvelar, e ainda que se queira a qualquer custo negar o talento e a inspiração, que se queira afirmar que o romantismo e a inocência morreram, eles estão lá, ainda que timidamente. É quando surgem os maravilhosos quatro versos, desde “E mesmo sem destronar o ouro negro” até o ápice do antigo estilo melódico dos compositores “Sonho, vê-lo enfim em seu reinado” (comparem com “Vila, querida, guerreira, tua coroa hoje é cocar” ...), quando todo o estilo de quimera se materializa perfeitamente ante a impossibilidade presente dos compositores. Ou ainda nos dois dos mais brilhantes versos deste Carnaval (“Negro, do açúcar mascavo / Branco toque refinado”), em que, através da transformação do açúcar mascavo em refinado, faz-se uma metáfora perfeita e concisa da essência negra do Carnaval e sua tentativa em “refiná-lo” (a “cobiça holandesa”) – observem o som gutural e sofrido como a melodia valoriza as sílabas em “Negro”, ou ainda pequenos achados perdidos no samba (o emprego das palavras “cana” e “Canaã” em seqüência, a expressão “academia é doce seu cantar”, ou “infinito alvorecer”, etc.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que se possa apontar o grupo de covarde por resignar-se às regras atuais do Carnaval ao invés de lutar contra elas, e até mesmo por levá-las contra a própria Vila Isabel, é preciso ver toda a questão de forma mais ampla, pois ela é bastante mais complexa. E é desta forma que este samba do Salgueiro reflete o desejo dos compositores de fazer um samba possível dentro de uma conjuntura atual do Carnaval em que o samba é apenas um acessório de um comércio. “Se não podemos contra eles, que sejamos por eles”, como único jeito de também se beneficiar com as regras do jogo. No entanto, o que nos parece profundamente comovente neste samba em particular é uma consciência profunda de que este samba não é “nem melhor nem pior” que os outros, é apenas o samba possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;9) Tijuca&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após dois anos de sambas extraordinários, o samba da Tijuca para 2004 deixa a desejar, e acaba refletindo um certo espírito de crise interna na escola após o decepcionante resultado do aguardado Agudás. E não por culpa do enredo, que é um dos mais interessantes deste Carnaval, uma releitura do Renascimento a partir de um confronto entre ideal e realidade, sonho e ciência. Apesar de alguns achados em termos de melodia (especialmente em “é tempo de sonhar”), que possui contornos inventivos, o samba sucumbe por sua falta de estrutura interna, e pelo seu tom primário em termos de letra. Em primeiro lugar, as inúmeras repetições (a palavra sonho e derivados aparece cinco vezes, “viajar” e “lutar” duas vezes, “com a Tijuca” e “eu vou” duas vezes). Em segundo, a falta de criatividade na estrutura dos versos, que na maior parte das vezes se limitam a listar um conjunto de verbos e substantivos como se fossem palavras-chave, mas sem nenhuma articulação entre eles (substantivos: “de sonhos e criação / desejos, transformação”, “profecia, loucura, magia”, “a lua, a terra e o mar”; verbos: “acreditar, desafiar, superar os limites do homem”, “querer voar e flutuar”, “quero desvendar, levar”). Isto se reflete nas rimas, em geral muito pobres, com absoluta ênfase na terminação em “ar”. No entanto, alguns versos, em que a terminação provoca um certo tom de reticências, dão ao samba um certo charme melódico que estimula o canto (“a lua, a terra e o mar”, “desvendar, levar”, e o belo verso “o velho sonho de ser imortal”). No entanto, toda a possibilidade que abria o enredo para um samba que incorporasse em sua estrutura uma idéia de sonho articulada com uma idéia de trabalho concreto e rotineiro acaba despedaçada pelo absoluto aspecto primário da composição do samba. No entanto, talvez permaneça como a maior incógnita entre os sambas de 2004 em termos de sua repercussão na Avenida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;11) Caprichosos de Pilares&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um samba de um ícone popular como a Xuxa e vindo de uma escola como a Caprichosos, que sempre preferiu sambas fáceis ou as “neo-marchinhas”, poderia seguir muitas opções: ser um samba puramente de empolgação e alegria, ou uma abordagem infantil no sentido de ser quase didática, ou ainda uma espécie de colagem de expressões típicas da apresentadora e de suas músicas (com abuso dos “xis”), etc. Mas os compositores surpreendem porque seguiram o caminho mais fácil e o mais difícil, e daí a surpresa desse samba. Ainda que dentro de todas essas opções – e em certos trechos cada um desses aspectos pode ser claramente identificado – e de tudo o que se poderia esperar de um samba com um enredo como este, os compositores conseguiram sua coerência por apostar em um samba simples mas de bom gosto melódico, e, acima de tudo, por realizar um samba em que uma visão de melodia suplanta a necessidade decorativa da letra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Humildes, os compositores optaram por uma samba repleto de meios-tons e contornos melódicos atípicos de um samba mais popular ou de empolgação. Todo permeado por uma bossa envolvente, com pausas que facilitam o canto e a bateria e, especialmente na primeira parte, por versos de passagem em tom menor, o samba inclusive chega a usar (na metade da primeira parte) uma estrutura de letra que nega o “ABAB”, ou seja, a rima imediata. Em termos de melodia, os contornos mais atípicos estão na segunda parte, em que – exemplo cada vez mais raro nos sambas desta década – o descritivo sucumbe ao melódico, especialmente no emprego do “ah!” ao começar o primeiro verso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em termos de letra, o samba tem duas passagens memoráveis. Já pelo título, o enredo é claro: o reino encantado da Xuxa tem relações diretas com o Carnaval, já que o Carnaval é época da valorização da imaginação e do sonho. Pois bem, os quatro primeiros versos fecham a questão de forma absolutamente sintética. “Pilares é festa / já tô no reino encantado, amor”. O Carnaval é como uma festa infantil, ou ainda como “um reino encantado”. “A lua a brilhar ... sonho de cristal”. Mais uma evocação do desfile da escola (à noite) com o cenário da festa popular, e a questão da encenação (“brilhar”, “cristal”) e da fantasia e da imaginação (“lua”, “sonho”). E enfim, os versos que explicitam a síntese: “Xuxa, Caprixosos, Carnaval”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao final da segunda parte, a questão retorna de forma mais sutil, ganhando um contorno quase místico. Ao falar da paz como forma de energia, os compositores tornaram a questão concreta quando “vestir-se de azul e branco” se associa à própria manifestação carnavalesca. Em contraste com o penúltimo verso, longo e contínuo, o último verso insere uma quebra, com magras quatro sílabas e um tom menor, de contorno bastante austero. A “fantasia” traz de volta o Carnaval: ela é o espelho de uma atitude carnavalesca que, ao recriar a possibilidade de um mundo da imaginação e de transfiguração subversiva da realidade, canaliza a esperança de um mundo de paz e nova energia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ponto fraco deste samba é sem dúvida o refrão do meio. Além de ter uma melodia repetitiva (a estrutura dos dois últimos versos é exatamente idêntica à dos dois primeiros), é um pastiche do refrão do meio da Caprichosos em 2000. Comparem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se a vida é um xou (A) /&lt;br /&gt;Tá no ar a magia (A) / de viver (B)&lt;br /&gt;Tira o pé do chão (A) /&lt;br /&gt;Hoje tem alegria (A) /  ilariê” (B)&lt;br /&gt;(Caprichosos 2004)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O violão (A) / a bossa nova (A) /&lt;br /&gt;Uma canção do rei (B) /&lt;br /&gt;Um hippie  (A) / sem compromisso (A) /&lt;br /&gt;O coração, a lei” (B)&lt;br /&gt;(Caprichosos 2000)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A melodia é idêntica; a única diferença é no tamanho dos versos. A estrutura é AABAAB. Enquanto em 2000, A tem quatro sílabas e B, seis; em 2004, é o contrário: A tem seis sílabas e B, quatro. Mas a cópia ainda foi tão mal feita que na parte “de viver” uma sílaba ficou faltando (vejam, “ilariê” tem quatro), e a saída foi postergar o “de”.  Bom, se bem que em 2000, no verso “um hippie” também falta uma sílaba...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ainda há uma parte que sinaliza muitos dos objetivos desta modesta composição: o refrão principal. Ápice da visão afetiva e humilde dos compositores, de seu olhar infantil como reflexo de uma ingenuidade, o refrão cresce muito na bela gravação do CD em que o coro das crianças quase abafa a voz de Jackson Martins, e desvela a idéia de que, nesse “Carnaval encantado”, é preciso a participação de todos. E vem um verso-síntese, um “refrão-desabafo” (remeto com a expressão ao efeito do refrão principal da Tuiuti 2004), cuja força de expressão é muito mais autêntica que o medo formalista da repetição (e com isso lembra o samba de Lequinho e Amendoim não-escolhido pela Mangueira em 2003 “eu sou feliz... eu sou feliz!”): “Xuxa, eu te amo, eu te amo, meu amor”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;12) Porto da Pedra&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Apesar de irregular, o samba do Porto da Pedra dá sua contribuição nesta safra por se debruçar sobre a questão do ritmo no samba-enredo atual. Assim, propõe-se a ser uma mescla entre um samba mais leve, de expressões fáceis e ligeiras, com um samba de molde mais clássico. Num certo sentido, portanto, sua proposta não é muito diferente da do samba da União de Jacarepaguá de 2003, em que dois refrões fortes eram contrabalançados por um samba de miolo clássico, com versos longos e cheios de proparoxítonos. Este samba do Porto da Pedra, no entanto, está longe de ser formalmente tão elaborado quanto o de Jacarepaguá, mas impressiona em primeiro lugar por sua concepção atípica de estrutura. Seu estilo descritivo, de versos longos, com descontinuidades rítmicas, com uma longa introdução, atinge o ápice na primeira parte, quase totalmente sem rimas, com alguns achados, como a ambígua pontuação em “você é meu porto (.) da pedra te enviei”, ou ainda da original pausa melódica antes do crescendo em “revelar”. O bom gosto, seja melódico, seja da letra, se faz presente em diversas partes (melódico em “eu fui a voz de antigas civilizações”, de letra em “senhores com brasões engalanados”, etc.), ou em quase todo o início da segunda parte. O ponto alto do samba é o belíssimo verso “no sorriso largo de um moleque fui recado”. Esse requinte é quase atípico do enredo que beiraria o trash, com a necessidade de citação da internet e os “arroba ponto com” da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o samba de molde clássico também precisa parecer moderno, precisa ter uma roupagem mais adequada. E aí surgem trechos de gosto duvidoso (o “vem, vem” logo de início, ou “levar pra lá e trazer pra cá”), como todo o final da segunda parte, com cinco “tô”, e um verso insípido como “eu tô na boa, antenado, é carnaval”. Na dificuldade de conciliar essas duas tendências, o samba do Porto da Pedra parece completamente irregular, e vem provocando uma reprovação quase geral. No entanto, por outro lado, é uma escolha corajosa, já que o samba tende a um andamento mais cadenciado que a média dos sambas atuais. Ainda assim, o samba é longo, e em algumas vezes se arrasta, o que pode provocar um desequilíbrio para a harmonia da escola. Seu resultado parece, no entanto, menos importante que a tentativa, e mantém sua contribuição no sentido de um reforço de um estilo mais melódico e elaborado em detrimento do trash de consumo imediato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;14) São Clemente&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste ano, quando a São Clemente retorna ao Grupo Especial, a escola resolve apostar novamente num enredo crítico, após anos em que a escola retornava ao Grupo Principal com enredos completamente fora de suas características (de Rui Barbosa a Guapimirim). O tom irreverente encaixou como uma luva no estilo nada discreto do carnavalesco Milton Cunha, e o mais importante é que a escola fez as pazes consigo mesma, e novamente a São Clemente recupera sua identidade carnavalesca. Isso se reflete diretamente no aspecto musical. O samba-enredo escolhido pela escola não é um primor em termos musicais, ou de melodia, não é um samba de invenção. Mas isso pouco importa em relação ao fato de que a São Clemente afinal consegue restabelecer um contato com sua identidade musical, com sua essência carnavalesca. Até porque o estilo leve e despojado da São Clemente nunca proporcionou sambas-enredo clássicos. Ao contrário, o padrão da escola sempre optou pelo viés despretensioso e alegre, e seus sambas sempre optaram pelo tom crítico que se espelha melhor através da letra que da melodia. Mas foi a partir dessa mesma despretensão que a escola apresentou seus melhores sambas-enredo, seja pela irreverência de E o Samba Sambou (1990) ou pelo tom mais melodioso de Capitães de Asfalto (1987).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa forma se espelhou toda a polêmica pré-escolha em torno do samba de Jorge Melodia e cia. Os mais conservadores reclamaram do suposto tom chulo do refrão do meio, em que se fala de “todo mundo pelado” e a “perereca da vizinha”. Mas em geral a escolha foi quase unânime, e o público presente aos ensaios abraçou o samba escolhido como há muito tempo não se via. Após a escolha, alguns mais afoitos, ao contrário, chegaram a consagrá-lo como o melhor samba deste Carnaval. Nem ao céu nem à terra: na verdade, o samba escolhido é um meio-termo entre o tom escrachado dos sambas dos anos oitenta e um certo refinamento melódico típico dos últimos três sambas da escola (pós-Eugênio Leal). Era, na verdade, um meio-termo entre o samba de invenção melódica e rítmica (o da parceria de Eugênio Leal), o samba de resgate explícito ao estilo verborrágico da escola (o da parceria de Diego Mendes, o mais crítico, cuja estrutura remetia diretamente ao samba de 1986, “muita saúva, pouca saúde, os males do Brasil são”) e até mesmo o atual samba de oba-oba (o da parceria de Fernando de Lima).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fortemente discursivo, com a letra suplantando a melodia, este samba da São Clemente cumpre seu papel: restabelece a identidade musical da escola, ainda que seja um samba que deixe a desejar em termos de algumas de suas soluções melódicas e rítmicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*   *   *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na próxima coluna, esperamos nos concentrar na safra dos Grupos de Acesso A e B (isto se eu conseguir “ter acesso” ao CD do B ...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda&lt;br /&gt;21/01/2003&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-714501373168583992?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/714501373168583992/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=714501373168583992' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/714501373168583992'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/714501373168583992'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/coluna-num-2.html' title='Coluna - num 2'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-2345046356817976082</id><published>2009-02-16T11:47:00.001-03:00</published><updated>2009-02-16T11:47:38.185-03:00</updated><title type='text'>Coluna - num 1</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Coluna número um – a safra do Grupo Especial de 2004: a questão das reedições&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de uma primeira coluna tratando de alguns métodos de análise, nas próximas colunas vamos (felizmente!) dar uma pausa neste lado mais conceitual para investir no que interessa: os sambas em si. O CD do Grupo Especial de 2004 já está lançado, e não há como NÃO mergulhar de cabeça no assunto do momento, sobre a safra de 2004 e o papel das reedições. O assunto é delicado; os sambas merecem grande atenção. A agenda é essa: ao longo dessas duas colunas devemos avançar numa análise mais pormenorizada dos sambas do Grupo Especial; em fevereiro, logo antes do Carnaval, do Grupo A e do Grupo B (se realmente houver CD...). Em março, uma grande síntese do desempenho dos sambas no desfile, um apanhado geral do que representou a safra de 2004 em termos de samba-enredo, o que ficará e o que se perderá na poeira do tempo. E em abril, voltamos à nossa vaca fria, pois quero investir num assunto polêmico e importante: por que os que assinam o samba não são necessariamente os autores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*  *  *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre as reedições&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a essa altura todos já devem estar carecas de saber, quatro escolas aceitaram a iniciativa da Liesa para reeditar antigos desfiles que marcaram o Carnaval Carioca: Portela, Império Serrano, Viradouro e Tradição. As duas primeiras foram fiéis à proposta original, reeditando desfiles anteriores à criação do sambódromo. Viradouro e Tradição utilizarão sambas de outras escolas, um expediente no mínimo inusitado: a Viradouro, o desfile da São Carlos de 1975 sobre o Círio de Nazaré e a Tradição, o da Portela de 1984 (portanto já na era sambódromo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a grande novidade é que as escolas desfilarão com os sambas originais, fazendo com que Império Serrano, Portela e Viradouro desfilem em 2004 com os mesmos sambas de 1964, 1970 e 1975, respectivamente. As dificuldades são várias, especialmente porque as demais dez escolas irão desfilar com enredos e sambas originais, com as naturais diferenças do carnaval de hoje e de quarenta anos atrás. Duas diferenças são as mais visíveis. Primeiro, os sambas de hoje possuem uma supremacia do descritivo em relação ao musical, tendo o samba a imperiosa necessidade de retratar a totalidade do enredo, na sua apresentação de desfile, enquanto os antigos sugeriam uma livre interpretação sobre o espírito em si do enredo, até porque antigamente os sambas eram criados sem um enredo preestabelecido, ou seja, primeiro era escolhido o samba, e em seguida o enredo era desenvolvido a partir do samba. Segundo, em termos do ritmo e da cadência do samba, em que hoje os sambas têm um ritmo muito mais acelerado que antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As reedições estão sendo muito comentadas em relação ao samba-enredo, mas é importante perceber que não se restringem a ele: na verdade, a iniciativa é de reviver os antigos carnavais, os desfiles clássicos de cada escola. Ou seja, a revisitação não é exclusivamente musical, mas também envolve a parte visual. Os carnavalescos terão o desafio de recompor o enredo aos moldes dos desfiles atuais a partir de uma “sinopse” dada pela letra do samba antigo. Em que medida a iniciativa terá repercussões na parte visual continua sendo uma incógnita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As possíveis comparações entre o aspecto visual e o musical dariam um capítulo à parte. Basta lembrarmos que enquanto a concepção visual do desfile será fundamentalmente atual, o samba-enredo será o da época do desfile original, o que inserirá um inevitável desequilíbrio entre o visual e o musical. É só tentarmos imaginar o que seria um desfile com um samba de hoje e com as alegorias e fantasias antigas para imaginarmos o reverso da questão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E em relação ao samba-enredo, que é o que nos interessa, quais são os pontos favoráveis e os desfavoráveis da reedição?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto aos pontos desfavoráveis, o principal é interpretar a idéia como mero saudosismo passadista, incutindo um conceito retrógrado e preconceituoso que prega que “o verdadeiro samba-enredo morreu, não é feito mais”, “o samba-enredo faz parte do passado”, etc, etc. Devemos ao contrário lembrar o que disse o sábio Paulinho da Viola, “eu não vivo no passado; é o passado que vive em mim”. É preciso perceber que o compositor de hoje tem restrições bem maiores em seu processo de criação: o samba precisa seguir meticulosamente uma sinopse, o processo de escolha do samba é longo e bem mais dispendioso, etc. Esta coluna poderia aproveitar o ensejo para colocar algumas reflexões sobre as diferenças deste processo no passado e hoje, mas o assunto é delicado, e merece ser tratado à parte. Em linhas gerais, apenas vale citar que enquanto antes o samba era essencialmente amadorístico, hoje convivemos com a mercantilização do samba-enredo, e sua semi-profissionalização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O risco das reedições é levar as pessoas a concluírem que ela foi feita porque “o samba atual não presta” ou que “samba hoje é tudo igual”. Mas se isso é absurdo, não se pode negar que o samba-enredo hoje precisa de uma “oxigenação”, uma “injeção de ânimo”, precisa encontrar novos caminhos e soluções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto porque atualmente o samba-enredo não é mais decisivo para ganhar o Carnaval: eis a suma síntese da primazia do visual sobre o musical ao longo de tantos anos. A visão do samba-enredo é puramente pragmática.  Não se precisa mais da qualidade musical: se a escola desfilou bem com um “samba-trash”, ele “cumpriu seu objetivo”, que é supostamente o de fazer a escola desfilar bem, e por isso ganha nota dez. Essa visão, praticamente consolidada, pode tornar o samba-enredo como gênero musical autônomo completamente dispensável. O samba não é mais visto a partir de sua qualidade musical, e sim como mero instrumento para a escola conseguir um melhor resultado. Ou seja, segundo a nomenclatura da coluna anterior, a ênfase é do samba-enredo na vertente pragmática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse sentido, ano passado tivemos algo perigosíssimo: os fracos sambas da Imperatriz e da Mocidade perderam pontos irrisórios no quesito samba-enredo, e as escolas tiveram boas colocações, chegando a participar do desfile das campeãs. Isso só reforça a constatação de que a qualidade musical do samba é completamente supérflua para a classificação final da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, as reedições, e especialmente, as notas de samba-enredo que serão dadas às reedições, podem dar um novo fôlego ao caráter musical do desfile das escolas de samba, no sentido de lembrar às escolas que samba-enredo de qualidade vale ponto, e romper com uma perigosa idéia que samba bom e melodioso é “grande, cansativo, e não empolga”, e que o bom samba é o que puramente faz “a escola desfilar bem”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sambas reeditados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como, segundo nosso cronograma, temos apenas duas colunas para falar dos sambas do Grupo Especial, é preciso ainda falar sobre os sambas reeditados em si, mesmo correndo o risco de tornar essa coluna gigantesca. É o que faremos a seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 – Império Serrano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o Império Serrano, a reedição veio no momento certo: era a oportunidade de resgatar o “orgulho imperiano”, sua enorme tradição e seu passado de glórias. “Aquarela Brasileira” foi o samba escolhido por inúmeros fatores: é um samba de exatos quarenta anos atrás (1964), extremamente conhecido de todos da escola, e realizado pelo principal compositor da escola e quiçá da história do samba-enredo, Silas de Oliveira. A Aquarela, descrevendo as regiões do território brasileiro, pode proporcionar um enredo de fácil abordagem, mais leve que um assunto histórico. O samba tem uma maior fluência rítmica que outros clássicos da escola, como Heróis da Liberdade ou mesmo Cinco Bailes Tradicionais na História do Rio, facilitando o canto e especialmente a adaptação da bateria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquarela Brasileira é o samba de formato mais clássico dentre os que serão reeditados. Típico samba-enredo dos anos 60, é um samba mais longo e praticamente sem refrões. Praticamente, pois ao final o “lalalaiá” não chega a ser um refrão de fato. Após quarenta anos, Aquarela resiste bravamente, e se destaca a discrição e a poesia do samba-enredo. Em comparação com outros sambas da época, Silas de Oliveira é econômico nos adjetivos, evitando as “palavras de purpurina” (na expressão de Rachel Valença). Apresentando seu samba numa forma narrativa, que descreve as visitas a cada região como uma verdadeira viagem ao redor do Brasil, Silas exibe sua opção de forma brilhante quando compara o asfalto da passarela a uma tela em que surgirá nosso país. Toda a letra é coroada por um tom saudosista e romântico, mas repleto de poesia, com passagens como “feitiço de garoa pela serra” ou “mulatas de requebros febris”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A melodia do samba se destaca por ser toda composta num leve e sutil crescendo. É como se paulatinamente, à medida em que o autor conhece as regiões do Brasil, seu encantamento se tornasse cada vez maior, a ponto de se tornar irresistível. O mais emocionante é que o ápice desse encantamento acontece na parte final do enredo, quando há uma síntese de tudo o que foi apresentado, justamente no verso “Brasil”. Os cinco versos a seguir são os mais agudos do samba, concluindo quase em euforia que o país é um verdadeiro paraíso tropical, focando nas belezas naturais (as matas e o céu). Ao fim, o suposto refrão apresenta uma inteligente solução de transição para a parte inicial do samba, novamente mais grave, e esclarece a essência do samba: ser no fundo um samba de exaltação, em que o autor canta livremente seu radiante “lalaiá” em homenagem ao país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 – Portela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Portela optou pelo samba de 1970, o último ano em que a escola foi campeã sozinha, sem dividir o título com outras agremiações. Em “Lendas e Mistérios da Amazônia”, que chegou a ser gravado por Chico Buarque, os autores conseguiram inserir um clima de mistério, surpresa e poesia que permeia todo o samba. Assumindo o tom de uma lenda (“dizem que os astros se amaram”, “e dizem mais”), tornando todo o samba uma grande fábula em forma de narração, o samba se destaca, em termos de melodia por um conjunto de tons graves que subitamente se combinam por agudos, mais ao final do samba. Os primeiros oito versos são praticamente no mesmo ritmo, dando ao samba um tom monocórdico e repetitivo, na estrutura ABABABAB em termos de melodia. No entanto, a melodia é completamente surpreendente para um samba-enredo, num tom grave e ambíguo em que o verso B funciona quase como uma resposta ao A, o que nos leva a pensar na primazia de um instrumento como a cuíca, dando à primeira parte um ritmo todo particular. Na segunda parte, no entanto, o samba se transforma com uma melodia mais aguda, que culmina a partir do sugestivo verso “Quando chegava a primavera”. Após esta “primavera”, o samba fica extremamente colorido e singelo, e só então compreendemos que a primeira parte é tão austera porque se concentra na parte do mistério, dos astros e do pranto. Ao final, surge um refrão completamente místico e absolutamente intuitivo, que coroa a aura de mistério, sedução e poesia de todo o samba. Em uma perna só, em seu gingado imperfeito e maravilhoso, o Saci Pererê é visto como se sambasse, em seu gingado sedutor, malandro, marginal e ingênuo, legítima representação do Carnaval e do sambista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3 – Viradouro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após uma longa indecisão a Viradouro resolveu reeditar a Festa do Círio de Nazaré. A princípio, com patrocínio do estado do Pará, a escola lançou sinopse para um enredo próprio, chegando a abrir a disputa para a escolha de um novo samba. Dentre eles, dois sambas se destacavam: o primeiro, assinado sozinho por Dominguinhos do Estácio, e o segundo, assinado pela mesma parceria campeã em 2003, em que Gustavo e Gilberto Gomes disputavam nada menos que o heptacampeonato na escola. Após algumas apresentações, o presidente Monassa anunciou o fim da disputa, e a eleição do samba da São Carlos de 1975.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande desafio do samba da São Carlos de 1975 é tornar sua estrutura uma verdadeira procissão. Nesse sentido, seus quatro primeiros versos estão entre os mais exemplares da história do samba-enredo: numa mistura de ladainha com um canto de lamento, num vigoroso tom menor, o samba explora a repetição como reflexo do gradual caminho do fiel em direção ao monumento santo. É nesse processo de peregrinação mística que o samba prossegue, culminando no segundo refrão, trabalhando com a própria idéia de oração no interior do samba. Na segunda parte do samba, no entanto, os autores procuraram situar a festa em seu “em torno”, situando-a como parte da economia, cultura e hábitos do local, que se vê então transformado com a presença da festa. Em contraposição ao ritmo lento e monocórdico da primeira parte, a segunda é repleta de versos ligeiros, em que as sílabas quase se embolam para espelhar a agitação frenética e a multiplicidade do local. Ao final, num refrão quase impensável, os autores conseguem listar um conjunto de comidas típicas de difícil entonação, num ritmo simples e envolvente, resolvendo com maestria uma composição de grande dificuldade técnica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4 – Tradição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Tradição optou por reeditar o samba da Portela, após verem fracassadas as negociações para homenagear a apresentadora Hebe. A decisão foi essencialmente política, em mais uma genial estratégia do polêmico Nésio Nascimento. Estrategista, Nésio rapidamente concluiu que a reedição seria a forma mais simples para a escola permanecer no grupo, já que a idéia é totalmente simpática à Liesa. Como a idéia surgiu em homenagem aos 20 anos da Liesa, Nésio escolheu um samba exatamente de 1984, quebrando a regra de reeditar um samba pré-sambódromo, e causou enorme polêmica por escolher um samba justamente da Portela, de onde a partir de uma dissidência surgiu a Tradição. A decisão de Nésio foi brilhante por inúmeros motivos. Primeiro por buscar um samba de inegável apelo popular cujo ritmo praticamente não sofrerá alterações com o atual ritmo da bateria. Segundo por promover uma reaproximação com a Portela, motivando de forma impensável seus componentes, unindo a agremiação e sua comunidade, e resgatando um elo que pode ser extremamente positivo para suas próprias ambições particulares, no momento em que Carlinhos Maracanã acena para finalmente deixar o comando da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há sambas que se tornam clássicos por refletir de forma incontestável um certo imaginário coletivo. É o caso deste samba da Portela de 1984. Se analisarmos o samba em si, em termos da letra e da melodia, concluiremos que é um samba convencional, até abaixo da média dos sambas compostos naquele ano. Mas o diferencial de Contos de Areia talvez seja o de que o enredo trata de três grandes pilares da história da Portela: Paulo da Portela, Natal e Clara Nunes. Ao invés de o samba ser de uma abordagem respeitosa, extremamente carinhosa e saudosista, os compositores buscaram o oposto: um samba que pudesse refletir o legado dessa trindade, a essência em carne, sangue e alma do que é ser portelense. Em uma única palavra, o “axé” que emana da Portela. Por isso, tamanha foi a felicidade dos compositores que é um samba de impacto direto e inevitável: sem se preocupar com qualquer rodeio que pudesse distraí-los de seu objetivo último, os dois autores, totalmente integrados ao espírito portelense (Norival Reis, autor simplesmente de Ilu Ayê, e Dedé da Portela, compositor e intérprete de longa data da escola), criaram um universo simbólico de enorme energia e apelo popular. Simples, de versos curtos, com três refrões envolventes, não deixa também levemente de mostrar sua sensibilidade e poesia (“Um mundo azul e branco / o deus negro fez nascer”, “Portela é canto no ar”, “na ginga do estandarte”). Contos de Areia conseguiu principalmente ser um samba que reflete em sua essência o que é ser portelense, e por isso tornou-se um dos mais executados sambas da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*   *   *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após se concentrar na safra do Grupo Especial de 2004, focando na questão da reedição dos sambas antigos, e na análise dos quatro sambas reeditados, a próxima coluna se voltará para uma análise cuidadosa das demais dez composições do Grupo Especial de 2004. Até lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda.&lt;br /&gt;18/12/2003.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-2345046356817976082?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/2345046356817976082/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=2345046356817976082' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/2345046356817976082'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/2345046356817976082'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/coluna-num-1.html' title='Coluna - num 1'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-426841427535550932</id><published>2009-02-16T11:45:00.003-03:00</published><updated>2009-02-16T11:47:11.894-03:00</updated><title type='text'>Coluna - número 0</title><content type='html'>Pessoal,&lt;br /&gt;vou postando aqui no blog textos antigos que escrevi sobre Carnaval. Aqui, posto uma coluna que escrevi para um "falecido" site e em seguida faço a análise dos sambas do Carnaval de 2004 .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um número zero: um adendo metodológico: o que é e para que serve um samba-enredo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 - Saravá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É com muita alegria que inicio as primeiras linhas da primeira de uma série de colunas sobre o samba-enredo. Ainda que tímida ou limitada, creio ser uma contribuição inicial para uma maior reflexão sobre os rumos desse gênero musical que já esteve entre os mais ouvidos do país, e agora passa por um período de relativa estagnação. Relativa, como veremos, pois existe uma série de compositores – alguns, da antiga; outros, gratas revelações – que, num trabalho sistemático e coerente, buscam novos caminhos e soluções contra o estereótipo do samba-enredo atual. Apesar de uma longa tradição, o samba-enredo permanece ainda pouquíssimo estudado, e quando isso se faz, raras vezes se aborda o samba-enredo dentro de suas peculiaridades, como ato de composição ou segundo uma perspectiva histórica de consolidação do gênero. Esta série de colunas, então, todo o tempo procurará um diálogo entre o presente e o passado, não só como forma de resgate, mas também para estabelecer elos que nos permitam pensar o futuro e o presente do samba-enredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso, antes, um pouco de paciência, até chegarmos ao cerne da questão. Primeiramente, portanto, esta coluna se concentrará em algumas questões de ordem metodológica, que esclarecerão ao leitor o que está em jogo aqui: qual é o ponto-de-vista que se oferece e os limites naturais dessa abordagem. Saravá aos que concluírem que a viagem possa valer a pena!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 – O que é o samba-enredo ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, uma pergunta óbvia, mas necessária, que tentarei abordar da forma mais simples possível, quase ao risco de se tornar simplória: o que é o samba-enredo? O samba-enredo – ou samba-de-enredo, como alguns preferem chamá-lo – é um gênero musical específico, uma forma de samba. Não nos cabe aqui narrar o nascimento do samba, nem mesmo como breve rascunho, mas o que nos interessa é que o samba-enredo possui uma peculiaridade em relação a outros gêneros musicais: é um samba feito com fins específicos, para o acompanhamento de um espetáculo que o envolve: o desfile das escolas de samba. Dessa forma, o samba-enredo poderia ser pensado como a ária de uma ópera, que envolve um espetáculo de representação visual e canto. Mas enquanto a ópera é feita para ser contemplada, o desfile das escolas de samba é um espetáculo essencialmente participativo. Ou seja, o samba-enredo não é cantado apenas pelo tenor (no caso o intérprete, ou puxador), mas por todos os componentes da escola. Embora a ópera num certo sentido também possa ser vista como manifestação popular (a opera buffa, especialmente a do século XVIII, atraía as classes médias, em especial a ascendente burguesia contra o domínio das óperas aristocráticas), é certo que ninguém saía das óperas cantando as árias, e sim no máximo assobiando-as, já que, para cantá-las, era preciso um dom vocal fora do comum. Ao contrário, no samba-enredo, pede-se que o maior número de pessoas possa cantá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, o desfile das escolas de samba é um espetáculo único, enquanto a ópera pode ser reapresentada em diversas sessões. Por isso, o samba é de natureza perene; já a ópera pode ser novamente encenada, utilizando as mesmas árias e composições. Isto é fundamental se pensarmos nas gravações: o samba-enredo só pode ser gravado antes da apresentação, para ser comercializado nos três meses anteriores ao Carnaval. Após o desfile, o samba-enredo é parte de um passado: sua função está encerrada. Já a ópera nunca pode ser veiculada antes da apresentação inicial, apenas depois. Ouvidas as composições, pode-se rever a ópera, em outra apresentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se o samba-enredo é parte de um espetáculo único – o desfile das escolas de samba –, é preciso ressaltar que o gênero é resultado de um processo de formação histórica particular: a história do samba-enredo caminha passo a passo com a história do desfile das escolas de samba, que, por sua vez, acompanha a própria história do Carnaval carioca. Dessa forma, o samba-enredo nasce com a escola de samba, e, como esta, guarda inúmeras influências das demais manifestações carnavalescas do Rio do início do século, em especial os ranchos, os cordões, os blocos e as grandes sociedades (o entrudo e o corso não tinham acompanhamento musical).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, deve-se notar que o samba-enredo deve ser visto como uma manifestação cultural originária dos excluídos. Criado no morro, nas periferias dos centros urbanos ligados à aristocracia e à burguesia, o samba-enredo é de origem negra e pobre, a paulatinamente teve sua inserção no “Carnaval oficial”, num processo histórico que transformou o desfile das escolas de samba e o próprio samba-enredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 – Pra que serve um samba-enredo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feitas essas considerações preliminares, podemos avançar para um ponto mais interessante, e ainda fundamental: pra que serve um samba-enredo? De modo esquemático, são quatro as principais vertentes para tentar responder essa questão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A) O samba-enredo é feito para empolgar o público, para contagiar o maior número de pessoas possível, de forma que seja uma explosão de alegria, sendo fácil de cantar e de memorizar, para que tenha um maior apelo popular. Essa é a vertente participativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;B) O samba-enredo deve ser feito para dar resultados, para assegurar à escola uma melhor colocação no resultado oficial, para proporcionar o maior número de notas dez possíveis no desfile, não só no quesito samba-enredo, mas nos ligados à harmonia, evolução, etc. É a vertente pragmática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;C) O samba-enredo deve ser feito como melhor apresentação possível do enredo a ser desenvolvido pela escola, como uma espécie de roteiro e síntese do que a escola apresentará em seu desfile. É a vertente descritiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D) O samba-enredo deve ser feito para ser ouvido e admirado, valorizado como componente autônomo, com suas peculiaridades e características próprias, como ofício de composição propriamente musical. É a vertente autônoma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como rapidamente pode-se ver, o samba ideal é o que combina de forma equilibrada esses quatro elementos: o bom samba é o que consegue descrever o enredo de forma adequada, contagiando o público, permitindo à escola um belo desfile e um bom resultado, sem abrir mão de sua qualidade musical.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, cada uma dessas vertentes possui pontos fortes e pontos fracos, caso haja uma extrapolação dos seus princípios. A vertente participativa insere o samba-enredo no espírito carnavalesco, como uma manifestação essencialmente popular, numa visão do Carnaval como uma grande festa. Por outro lado, pode-se cair no “samba-clichê” com expressões fáceis e superficiais para estimular o componente a pular, e não sambar, ou a gritar, e não cantar. A vertente pragmática recupera o desfile competitivo, como forma de organização e planejamento para que a energia carnavalesca não se dissipe, mas por outro lado corre o risco em transformá-lo num artifício mecânico meramente técnico e sem vida. Já a vertente descritiva coloca o samba a serviço do enredo, contribuindo como uma peça no sentido do espetáculo ser mais acessível ao público. Por outro lado, o samba pode acabar se revelando meramente descritivo, didático, com predomínio da letra sobre a melodia. Por fim, a vertente autônoma tem seu destaque por conferir ao samba-enredo um tratamento privilegiado, vendo-o como gênero próprio, com suas particularidades e características, mas deixa de vê-lo de forma mais ampla, na sua relação com o desfile das escolas de samba e com o Carnaval carioca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3 – Um ponto-de-vista: o compositor-autor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto posto, deve-se destacar que, ainda que tente conciliar as quatro vertentes, esta série de colunas tentará privilegiar o samba-enredo em sua vertente autônoma. O que se busca é exatamente pensar o samba-enredo como um gênero com características próprias. Nossa análise tentará analisar o samba-enredo em seu processo de autoria. O autor do samba, através de letra e melodia, pode expressar no samba-enredo a sua visão particular do próprio processo de composição de um samba-enredo, do Carnaval e sua relevância em relação ao dia-a-dia do resto do ano, seu ponto-de-vista sobre o enredo da escola, em suma, manifestar sua própria visão de mundo. No interior de um espaço restrito ao qual o compositor precisa se ater, tanto em termos do enredo proposto quanto em relação às próprias convenções rítmicas e melódicas particulares do gênero, o compositor pode procurar um espaço próprio de criação e de expressão particulares, levando o samba-enredo para além de meramente ilustrar ou descrever o enredo proposto. É esse conjunto de autores e de sambas-enredo que transcende os limites do gênero, desafiando suas convenções e seus processos típicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*   *   *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas próximas colunas, tentaremos mostrar algumas dificuldades relacionadas ao processo de autoria e ao modelo atual das escolhas de samba-enredo, em que os que assinam o samba nem sempre são os compositores. Além disso, iremos abordar alguns fatores que levaram o gênero atualmente a uma “relativa estagnação” –  usando a expressão da primeira seção deste texto –, relacionados à primazia do visual sobre o musical nos desfiles atuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Ikeda&lt;br /&gt;12/11/2003&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-426841427535550932?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/426841427535550932/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=426841427535550932' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/426841427535550932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/426841427535550932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2009/02/coluna-numero-0.html' title='Coluna - número 0'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-112898195826840879</id><published>2005-10-10T19:05:00.000-03:00</published><updated>2005-10-10T19:05:58.273-03:00</updated><title type='text'>Rocinha</title><content type='html'>Depois da covarde troca de horários com a poderosa Beija-Flor, a Rocinha sai atrás com a escolha de samba-enredo. Os sambas, com versos fáceis, e tiradas de letra sofríveis (“Adeus pindaíba, chega de chorar!” ou “Acorda pro batente, meu irmão”), não conseguiram achar o tom adequado para contar esse enredo. Ao invés da irreverência da letra, o carnavalesco Alex de Souza, imbuído da “missão Rocinha”, num grande projeto que supostamente uniria os socialites e os traficantes de São Conrado através do mundo do samba, busca um enredo “educativo” ou “didático”, com um tom de “paz, amor e prosperidade”. Esse tom politicamente correto está completamente ausente da letra dos sambas finalistas, que preferiram um tom mais leve e alegre. A partir desse descompasso, os compositores ainda fizeram composições sem nenhuma inspiração tanto em letra quanto em melodia, tornando a escolha na escola, qualquer que ela seja, extremamente sofrível. Se as coisas continuarem assim, o destino da Rocinha deve ser mesmo o retorno ao Grupo de Acesso. O samba de &lt;strong&gt;Isaac e Helinho 107&lt;/strong&gt; lembra alguns dos sambas da São Clemente dos anos 90 (em especial um sobre o pão, provavelmente composto pelo próprio Helinho), especialmente na segunda parte. Acaba sendo um pouco melhor que o samba de &lt;strong&gt;Marquinhos e Marinho&lt;/strong&gt; que, apesar de um ritmo mais acelerado, que pode acabar sendo mais eficiente, tem problemas de letra e de estrutura. Os dois sambas acabam se nivelando, e nesse caso, infelizmente, por baixo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-112898195826840879?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/112898195826840879/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=112898195826840879' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112898195826840879'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112898195826840879'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2005/10/rocinha.html' title='Rocinha'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-112898080922957319</id><published>2005-10-10T18:28:00.000-03:00</published><updated>2005-10-10T18:46:49.236-03:00</updated><title type='text'>Salgueiro 2006</title><content type='html'>O Salgueiro vem chegando a uma encruzilhada que comprova a necessidade de uma mudança de rumos radical. Depois de três anos em que o samba de competição da pareceria do Leonel ganhou a disputa sem nenhuma contestação, a vitória do samba de Moisés Santiago e Waltinho Honorato em 2005 parecia trazer novos rumos para a escola. A nova parceria trouxe um samba mais cadenciado com maiores quebras melódicas mas no fundo trouxe o mesmo estilo dos antigos campeões. A mudança apenas confirmou o mesmo, e a sofrível safra de 2006 só comprova o completo esgotamento de um estilo de samba-enredo buscado pela escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O samba de &lt;strong&gt;Moisés Santiago e Waltinho Honorato &lt;/strong&gt;segue a mesma linha melódica e rítmica do samba com que foram campeões no ano anterior. A chave do estilo de Moisés Santiago (o samba parece ter pouco do estilo dos sambas de Honorato para a Imperatriz) é o samba de versos curtos, e que facilite o canto. Com isso, favorece a harmonia, como se viu no desfile de 2005, mas comprova uma visão de samba-enredo um tanto superficial, baseado em respostas fáceis (o refrão final com “amar” e “sonhar”). O olhar pela melodia mais cadenciada e com meias-pausas não consegue esconder um samba calcado em frases de efeito que repete antigos bordões sem colocar no samba uma visão seja de letra ou de melodia que saia do lugar-comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, o estilo de “samba-trator” dos sempre campeões &lt;strong&gt;Leonel e companhia&lt;/strong&gt;. Nesse ano, após a derrota em 2005, a parceria sofreu uma modificação, colocando dois parceiros (Tiãozinho e Abs) já tradicionais na escola, como se se buscasse um reforço de bastidores. Isso só aumenta a percepção de que nenhum deles compõe o samba, já que o samba é exatamente o mesmo de todos os anos em que a parceria de Leonel concorreu no Salgueiro. Aqui, apesar do estilo mais acelerado, há sem dúvida uma tentativa, comum da parceria, de inserir um vigor melódico (“há vida em volta”) mas dessa vez há uma dificuldade tanto de traduzir o enredo quanto de colocar de forma orgânica uma idéia de ritmo, tão cara à parceria. Com isso, fazem o samba mais mal construído dos últimos cinco anos da parceria. Sem conseguir se desvencilhar dos defeitos de sempre dos sambas anteriores (a falta de pausas, o “samba de encomenda”, etc.) ainda perde o apuro de letra e a poesia, típicos de seus trabalhos anteriores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O samba de &lt;strong&gt;Líbero e João Conga&lt;/strong&gt; tenta oferecer uma alternativa ao samba de embalo tipicamente salgueirense, mas o faz de uma forma um tanto primária para que possa atingir um melhor nível. O samba se equilibra exclusivamente nos dois refrões, que são meramente funcionais, mas que não chegam a acrescentar nenhum brilho particular. O refrão final (“o milagre da vida taí pra se ver”) é o melhor momento melódico do samba, embora falhe na letra. Todo o samba carece de uma sintonia entre ritmo, letra e melodia, que é o básico para qualquer samba acontecer. O miolo das duas partes é construído sem dar espaço para as pausas, trazendo várias dificuldades para a bateria e para a harmonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, o samba de &lt;strong&gt;Dudu Botelho e Guilherme Sá&lt;/strong&gt;, “os meninos do Salgueiro”. Os “meninos” acabam sendo o grupo mais promissor do Salgueiro, mas o problema é que já está na hora de eles deixarem o rótulo de “promissores” e realmente acontecerem. Ou seja, falta que o estilo deles “desabroche”, para usar um termo contido no seu próprio samba. Indecisos entre criar uma identidade musical pessoal ou adotar o estilo de sempre da escola, esse samba, da mesma forma como os dos anos anteriores, é fruto de uma imensa dúvida, de uma dificuldade em se decidir o que se tem em mente. Com isso, torna-se extremamente irregular. Ao mesmo tempo em que tem um refrão final completamente previsível e um início da primeira parte bastante acelerado, tem partes memoráveis como o miolo da primeira parte (“Rumo ao encontro do mar / Nas profundezas (...)” e especialmente a segunda parte que, embora com poucos versos, traduz na melodia uma fuga do lugar comum tão típica das composições da vermelho-e-branco.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-112898080922957319?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/112898080922957319/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=112898080922957319' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112898080922957319'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112898080922957319'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2005/10/salgueiro-2006.html' title='Salgueiro 2006'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-112673618006410169</id><published>2005-09-14T19:15:00.000-03:00</published><updated>2005-09-14T19:17:00.210-03:00</updated><title type='text'>É a Vila! É a Vila!</title><content type='html'>Se ano passado a disputa já esquentou, imagine esse ano. E tinha que ser lá: na &lt;strong&gt;Vila Isabel&lt;/strong&gt;, lá no Boulevard de Noel Rosa e tantos outros. Ali é onde o passado e o futuro do samba se cruzam, e na quadra da Vila está presente hoje o único debate em torno dos rumos do samba-enredo, do que se quer para o Carnaval e para o samba. De um lado e de outro os maiores expoentes de uma ou de outra visão. Luiz Carlos da Vila dessa vez uniu-se ao aliado de maior peso possível: &lt;strong&gt;Martinho da Vila&lt;/strong&gt;. De outro lado, o professor &lt;strong&gt;André Diniz&lt;/strong&gt;, que já faz parte da história dos sambas da Vila, da história desse gênero musical chamado samba-enredo com os sambas que fez a partir da década de noventa. O que quer o Carnaval? O que quer a Vila Isabel? É difícil decidirmos, porque cada um apresenta o que há de melhor em um e outro olhar. Mas o cenário desse “round” está longe de ser perfeito: está longe de ser o melhor samba de Martinho; está longe de ser o melhor samba de Diniz. O samba de Martinho é passadista demais; o de Diniz não consegue equilibrar suas quebras rítmicas e melódicas e representa um “mais do mesmo” que pela primeira vez parece chegar a uma encruzilhada. Se o cenário não é o ideal, é o possível, e em cima dele, a Vila vai decidir se o samba-enredo tradicional merece ou não esboçar uma reação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-112673618006410169?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/112673618006410169/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=112673618006410169' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112673618006410169'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112673618006410169'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2005/09/vila-vila.html' title='É a Vila! É a Vila!'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-112673531045193067</id><published>2005-09-14T19:01:00.000-03:00</published><updated>2005-09-14T19:01:50.453-03:00</updated><title type='text'>um pequeno saldo</title><content type='html'>Esse ano, em que eu me animei para escrever, a coisa parece que está braba. Uma nuvem negra sobrevoou a inspiração dos gênios: os sambas do Gusttavo e do Toco são completamente dispensáveis. Na Vila, nem André Diniz nem Martinho fizeram jus ao antológico confronto (eu ousaria dizer que se trata do “confronto da década” no samba-enredo). No Salgueiro, a coisa anda cada vez mais triste. Nem na União de Jacarepaguá parece ter algo que se salve... Por enquanto, sem dúvida, o samba de Carlinhos da Paz no Império Serrano e o ótimo samba do Cláudio Russo na Grande Rio. Da Beija-Flor com certeza sairá mais um ótimo samba. Vejamos (ouçamos) mais um pouco...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-112673531045193067?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/112673531045193067/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=112673531045193067' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112673531045193067'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112673531045193067'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2005/09/um-pequeno-saldo.html' title='um pequeno saldo'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-112673479681510533</id><published>2005-09-14T18:51:00.000-03:00</published><updated>2005-09-14T18:53:16.820-03:00</updated><title type='text'>Samba do Cadu na Caprichosos</title><content type='html'>Para quem conhece os &lt;strong&gt;sambas do Cadu&lt;/strong&gt; (e eu posso dizer que os conheço como poucos), ver (ouvir) esse samba da Caprichosos é ao mesmo tempo bastante surpreendente e bastante previsível. De um lado é um desejo de se livrar de toda a pressão que ano a ano cai sobre seus ombros em mais uma disputa na Mangueira. De outro, uma falsa tentativa de mudar, enquanto no fundo no fundo não se sai do lugar. Uma ousadia tímida. Quem também já ouviu os seus sambas dos grupos de acesso (em que todo o cuidado com a artesania tão típica dos seus sambas vai pro espaço...) não vai se surpreender com o samba. Então ficamos com a impressão de uma espécie de meio-termo: um samba mais “pra cima”, com a cara da escola, e uma tentativa de fazer contornos mais melódicos e uma ou outra quebra. No fundo acaba revelando a tendência do compositor (que também se revela no samba da Ilha): o conservadorismo melódico. Ou seja, se por um lado o samba confirma os talentos do compositor com um caminho de continuidade, por outro a mudança não conseguiu fazer com que fosse superado nenhum dos limites de suas composições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse samba, as meias-pausas, de que o compositor tanto gosta, acabam (conscientemente, diga-se) travando o samba, que, por suas características, precisa ter um andamento diferente. O antepenúltimo verso, tanto da primeira quanto da segunda parte, seguram o samba, e dificultam a harmonia, enfraquecendo-o. Ou ainda o refrão do meio. Mas há bons momentos: na letra, uma tentativa de uma metalinguagem (“vou comer este refrão”), um jogo de palavras (“é bom bom provar”); na melodia, o lírico início da segunda parte, ou uma aceleração mais em seguida (“Marrom da cor do pecado”), na moda dos últimos sambas do André Diniz . Mas no todo, fica uma “sensação do mesmo”, porque se essa tentativa de sair da Mangueira e fazer um samba na Caprichosos representa um desejo de voar, Cadu o faz sem nunca tirar os pés do chão, sem nunca perder a obsessão pelo equilíbrio, pelo polimento. Com isso, faz um samba correto, e até bem acima da média do que vai ser visto na escola, mas que representa pouco em termos do que o compositor poderia oferecer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-112673479681510533?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/112673479681510533/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=112673479681510533' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112673479681510533'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112673479681510533'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2005/09/samba-do-cadu-na-caprichosos.html' title='Samba do Cadu na Caprichosos'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-112603173380429722</id><published>2005-09-06T15:35:00.000-03:00</published><updated>2005-09-06T15:35:33.806-03:00</updated><title type='text'>“A manga é da boa e vai pro Japão”</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#006600;"&gt;“A manga é da boa e vai pro Japão”&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Esse verso do samba do Bira Show para a Mangueira 2006 ficou ressoando na minha cabeça. É uma analogia muito feliz, porque sabemos que o carnaval, o samba, hoje é “para exportação”, cada vez mais. Então, hoje, os maiores gravadores de samba são os japoneses. Eles vêm para o Brasil e gravam, por um selo japonês, CDs de samba com a velha guarda das escolas, e o que pintar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então que “A manga é da boa e vai pro Japão” acaba tendo um outro, novo, significado...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-112603173380429722?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/112603173380429722/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=112603173380429722' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112603173380429722'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112603173380429722'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2005/09/manga-da-boa-e-vai-pro-japo.html' title='“A manga é da boa e vai pro Japão”'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-112603104595565066</id><published>2005-09-06T15:23:00.000-03:00</published><updated>2005-09-06T15:24:05.956-03:00</updated><title type='text'>Mangueira - sambas do Rody e do Rubens</title><content type='html'>&lt;p&gt;Os sambas do Rody e do Rubens propõem um estilo de samba-enredo diferente do que está aí. Mas o problema é que o diferente, no caso deles, não representa um novo estilo, mas um velho. E "a fila anda", como se diz por aí. Então que esse estilo de samba-enredo não cabe mais nos dias de hoje. Mas marca uma posição, e são dois sambas bem antenados com o estilo de samba da escola nos anos 70. Uma posição saudosista, nostálgica, contra "a evolução da espécie", contra "o rumo das coisas". Propõem um samba que não existe mais. Ou seja, ao invés de propor uma atualização desse antigo estilo de samba, se limitam a repetir o antigo. Então mostram que pararam no tempo. Ou que querem que o tempo volte, o que é impossível. Feliz ou infelizmente.&lt;br /&gt;A gravação dos dois, esp a do Rody, coloca isso de forma muito clara. A gravação é como as gravações antigas. Até o estilo de gravação tentaram resgatar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não deixa de ser comovente, e gostoso poder ouvir dois sambas diferentes, poder sentir um pouco um gostinho daqueles sambas de antigamente. Mas  - repetindo o bordão -, feliz ou infelizmente, a fila anda...&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-112603104595565066?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/112603104595565066/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=112603104595565066' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112603104595565066'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112603104595565066'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2005/09/mangueira-sambas-do-rody-e-do-rubens.html' title='Mangueira - sambas do Rody e do Rubens'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-112603091208414636</id><published>2005-09-06T15:20:00.002-03:00</published><updated>2009-03-09T22:19:52.568-03:00</updated><title type='text'>MANGUEIRA 2006</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;Talvez de todas as escolas do Grupo Especial a que eu tenha acompanhado com mais proximidade nos últimos três anos é a Mangueira. Por mero acaso ou ainda por motivos que escapem aos estritamente musicais, já que musicalmente a escola me interessa muito pouco, muito menos do que uma Beija-Flor ou uma Tijuca. Ainda assim, dentro do estilo conservador característico da escola, consegue surgir um samba arrebatador como o do Lequinho para 2003, ou o do Cadu para 2005. Ambos perderam, evidentemente, para sambas muito piores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a safra de 2006, ao contrário do que venho ouvindo por aí, é a melhor em muito tempo na escola. Não que tenha nenhum samba maravilhoso, mas o que impressiona é o equilíbrio. Pelo menos &lt;strong&gt;quatro sambas&lt;/strong&gt; de equivalem e têm totais possibilidades de representar bem a escola na Avenida: são os sambas &lt;span style="color:#006600;"&gt;&lt;strong&gt;i) de Lequinho e Amendoim; ii) do BiraShow; iii) do Gilson Bernini; iv) do Rafael dos Santos.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; Este ano um tradicional finalista (chegou à final nas últimas cinco disputas, ganhando uma delas, na sua quarta final) não inscreveu samba: a parceria de Cadu, o que deixa uma grande lacuna para a competição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além dos quatro, outros sambas vêm tendo uma contribuição importante na disputa. Em especial, destacam-se &lt;strong&gt;os sambas do Rubens e do Rody&lt;/strong&gt;, por sua proposta de resgatar um samba típico da escola do final dos anos 70, apesar de seu viés nitidamente passadista. O samba do &lt;strong&gt;Bizuca&lt;/strong&gt;, que tenta inserir quebras melódicas e rítmicas mais ousadas para a escola, apesar de não conseguir manter seu equilíbrio, tem seus momentos especialmente no miolo da primeira parte. O de &lt;strong&gt;Jorge Moreira &lt;/strong&gt;e seu sedutor refrão do meio. O equilibrado samba de &lt;strong&gt;Celso Tropical &lt;/strong&gt;(e seu discreto mas eficiente crescendo na segunda parte), que pelo segundo ano consecutivo vem fazendo sambas coerentes e corretos na Mangueira, embora sem empolgar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Lequinho e Amendoim &lt;/strong&gt;comprovam seu estilo melódico, alegre, atento às necessidades atuais do samba-enredo, mas querendo dar sua contribuição na possibilidade de inserir um maior fôlego nos nuances de melodia e ritmo. Este samba tenta ser uma síntese das participações da dupla ao longo das últimas disputas da Mangueira: o “samba de emoção” que arrebatou a torcida em 2002, o “samba de invenção” com suas variações melódicas e rítmicas de 2003, o “samba de resultado” de 2005. Encurralados entre seu projeto pessoal e as necessidades pragmáticas da disputa, a dupla tentou nesse samba uma espécie de meio-termo, mas de qualquer forma o samba é muito melhor que o burocrático samba do ano anterior. Ainda que esbarre no tradicional calcanhar-de-aquiles da dupla (os problemas de letra, especialmente relativos à repetição de palavras), o samba para 2006 exala a energia tradicional dos sambas da parceria, no vigoroso crescendo do refrão do meio, na ousadia dos três refrões. Sua habilidade em compor variações melódicas de forma articulada pode ser vista, em seu mais alto nível, no refrão final, com o verso “a fonte da vida esperança nos dá”. A alegria no percurso pelo Rio São Francisco e a generosidade do olhar da dupla lembram a poesia do samba de 2004, que mal chegou à final. Uma espécie de síntese que mostra a coerência da dupla de compositores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de uma pausa em 2005, a parceria de &lt;strong&gt;Bira Show &lt;/strong&gt;volta à disputa na Mangueira com um samba swingado repleto de maias-pausas e de modulações melódicas típicas do samba anterior. Herdeiros de uma samba-enredo mais tradicional, este samba é o único que segue a linha deixada pela parceria do Cadu, embora o Bira tenha sido na verdade um dos maiores críticos do desempenho do samba vencedor em 2004. O equilíbrio, o bom gosto da letra (sem dúvida a melhor letra entre os sambas concorrentes), o esmero pelo polimento das arestas, a dedicação às meias pausas e ao ritmo que tende ao mais cadenciado credenciam o samba como um dos mais típicos do estilo melodioso da Mangueira. Os autores também se destacam por terem feito uma leitura bastante particular do enredo, íntima e ligeiramente melancólica (“vinho pra esquentar o coração” ou os contornos da melodia “Eh! Violeiro/ Violeiro,cantador”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O samba de &lt;strong&gt;Rafael dos Santos &lt;/strong&gt;(que integrou a parceira do Cadu em 2005) e parceiros possui um olhar diverso, atípico da Mangueira: um samba menos cadenciado e mais próprio para a disputa. Com isso, surge como azarão, quase como o samba do Lequinho em 2002. No entanto, o samba é bem articulado, a letra não é pequena (como por exemplo o do Bizuca), possui um refrão do meio envolvente e algumas pequenas quebras de ritmo bem eficientes (o tom baixo do início da segunda parte e a crescida após “tem manga no pé”). A segunda parte do samba surpreende e mostra que o samba não é mero “arroz de festa”: conjuga seu olhar por um samba mais leve e de empolgação sem perder a coerência. Um azarão que merece ser observado mais atentamente do que vem sendo comentado e que pode surpreender na reta final. E que cumpre um papel importante, mostrando um estilo diferente de samba-enredo dos demais competidores. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Por fim, o samba de &lt;strong&gt;Gilson Bernini&lt;/strong&gt;, um velho conhecido da escola, por ter ganhado várias disputas com a parceria de Clovis Pê e Marcelo D´Aguiã (outro que sumiu das disputas). Bernini, que adaptou seu estilo “moleque” dos sambas do Jacarezinho (“olha o Pluft aqui, olha o Pluft ali”) para uma melodia balanceada, mais adequada para o estilo da Mangueira, comprova seu olhar pela melodia, com contornos melódicos atípicos que são retomados com diversos paralelismos entre os refrões e as duas partes do samba. Destaca-se também a poesia do início da segunda parte. Trechos de grande inventividade melódica como “A carranca da Mangueira vai passar”, “E tem manga sem fiapo pra saborear” e “Banhou de fé o coração” mostram o estilo característico e a visão de samba-enredo do compositor. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-112603091208414636?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/112603091208414636/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=112603091208414636' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112603091208414636'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112603091208414636'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2005/09/mangueira-2006.html' title='MANGUEIRA 2006'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14927234.post-112264508069117336</id><published>2005-07-29T10:47:00.000-03:00</published><updated>2005-07-29T10:51:20.693-03:00</updated><title type='text'>SAMBOFILIA</title><content type='html'>Respeitável público!&lt;br /&gt;Foram abertos os portões!&lt;br /&gt;Olha lá o relógio! Já deu o primeiro minuto!&lt;br /&gt;Então vamos botar a escola na Avenida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samba-Enredo.&lt;br /&gt;Gênero em decadência.&lt;br /&gt;O samba sambou. Dinheiro. Torcidas. Dirigentes poderosos. Panelinha.&lt;br /&gt;E o samba-enredo? Sambou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que sambou mesmo?&lt;br /&gt;Ou por trás de tudo isso ainda há a possibilidade do samba-enredo de invenção?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o que veremos...&lt;br /&gt;As eliminatórias para 2006 já começaram...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14927234-112264508069117336?l=sambofilia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sambofilia.blogspot.com/feeds/112264508069117336/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14927234&amp;postID=112264508069117336' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112264508069117336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14927234/posts/default/112264508069117336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sambofilia.blogspot.com/2005/07/sambofilia.html' title='SAMBOFILIA'/><author><name>Cinecasulófilo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17585855697515454968</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
